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O Som da Memória: Estúdio Clara Nahas estreia na CASACOR São Paulo 2026 assinando o Estúdio Semibreve

  • há 3 horas
  • 9 min de leitura

Texto: Revista Habitare Fotos: Divulgação



A CASACOR São Paulo inaugura sua 39ª edição, que ocorre entre 2 de junho e 9 de agosto, no Parque da Água Branca, em São Paulo. Consolidada como a mais completa plataforma cultural de arquitetura, paisagismo, e design de interiores das Américas, a mostra reúne 70 ambientes e ocupa um dos cenários mais simbólicos da capital paulista. Fundado em 1929, o parque que sedia o evento constitui um enclave histórico no coração da capital paulista, onde edifícios da primeira metade do século XX e uma paisagem verde preservada resistem ao avanço vertical da metrópole. Nesse território de permanência, onde o tempo parece obedecer a uma outra cadência – mais lenta e silenciosa – o Estúdio Clara Nahas faz sua estreia assinando o Estúdio Semibreve.


Desenvolvido em parceria com a Todeschini – uma das maiores e mais tradicionais fabricantes de móveis planejados da América Latina –, o estúdio de 55 metros quadrados materializa um manifesto sobre a identidade e a capacidade do design de dar corpo ao intangível. Para traduzir o tema desta edição, “Mente e Coração” – que convoca os profissionais a refletirem sobre o lar como o espaço primordial de reencontro com o próprio eu e com o propósito pessoal –, Clara Nahas escolheu percorrer o caminho do afeto. Para a arquiteta e diretora criativa do estúdio homônimo, a estreia na mostra não poderia se resumir a uma vitrine de tendências efêmeras; o projeto é uma investigação biográfica como homenagem póstuma à sua mãe, musicista e pianista profissional que fez da casa onde a profissional passou a infância um território de liberdade criativa.



Semibreve, nome que batiza o ambiente, é a chave de leitura para toda a experiência. Na notação musical, a semibreve é a figura rítmica de maior duração: a nota que preenche o compasso e sustenta o som, exigindo uma pausa para que sua plenitude seja ouvida. Na proposta do estúdio, essa sustentação traduz a intenção de uma arquitetura que convida a desacelerar. Nahas e sua equipe propõem um morar que transcende a ideia de abrigo para se tornar o suporte físico das histórias que ali habitam. Na visão da arquiteta, “lar é o lugar do reconhecimento; uma conexão ininterrupta entre o tangível e a memória”.


Para materializar essa tese, Clara recorreu ao seu “baú de memórias”, desde um inventário de objetos, até as lembranças da figura materna durante a primeira infância. O eixo lírico do projeto é a partitura original de uma música composta por sua mãe após o nascimento. A obra, premiada em um festival no Espírito Santo, estado natal da arquiteta, está emoldurada no dormitório como a certidão de sua própria sensibilidade artística. “Minha mãe era diretamente ligada ao universo da arte. Sinto que só sou arquiteta hoje porque fui criada em um ambiente onde podia ser exatamente quem eu quisesse ser”, revela.



Essa atmosfera de estímulo constante refletia-se em práticas cotidianas que hoje se transformam em soluções de design. A arquiteta recorda das manhãs onde lençóis cobriam o piso da cozinha para que a jovem pudesse pintar livremente – um cotidiano que “era, em essência, um ateliê aberto cercado por músicos, educadores e artistas”, conta. No Estúdio Semibreve, essa fluidez é traduzida em um ambiente que busca o equilíbrio entre a intensidade cromática e o silêncio das formas puras. É um refúgio pensado para uma artista, mas também um gesto de reconexão universal com o acolhimento materno.


A organização da morada de 55 m² desafia a escala reduzida para entregar uma casa completa: sala, cozinha, dormitório, área de estudos, closet e banheiro articulam-se de forma contínua. O elemento central da arquitetura é um volume cilíndrico em tom bordô, que funciona como o eixo estrutural e simbólico do espaço. Este "coração" arquitetônico organiza os fluxos, orienta o percurso e abriga a intimidade, numa transição suave entre a vibração das áreas sociais e o recolhimento da área íntima. O elemento é uma peça de cor e massa que pulsa no centro da morada.



O projeto é um exercício de arquitetura e interiores. Detalhes foram pensados para guiar o visitante por camadas de percepção. Entre o som da vitrola ecoando simbolicamente, a marcenaria desenhada sob medida e executada pela Todeschini, e uma curadoria de mobiliário e arte categoricamente selecionada, o Estúdio Clara Nahas constrói uma narrativa onde a arquitetura é o “enredo que une quem fomos ao que escolhemos ser”. O resultado combina compactação técnica e fluidez poética, provando que o lar não é apenas abrigo, mas uma construção de identidade ao longo do tempo.


No Estúdio Semibreve, a materialização da narrativa exigiu um exercício rigoroso de zoneamento e uma subversão proposital da lógica habitacional. Em uma área de 55 metros quadrados, o Estúdio Clara Nahas estabelece uma planta de fluxo invertido, onde a hierarquia convencional entre o público e o privado é reordenada para priorizar o recolhimento. Diferente da recepção imediata por áreas sociais, a entrada acontece pela zona íntima. O visitante da mostra é convidado a percorrer o dormitório e o ambiente de estudo antes de alcançar a amplitude da convivência. Esta decisão projetual atua como um filtro sensorial: atravessar a intimidade torna-se um rito de passagem necessário para se conectar com a alma da casa, sugerindo que o despojamento pessoal deve preceder o encontro com o outro.


Estruturalmente, o espaço é segmentado em dois núcleos principais que, embora integrados, preservam sua autonomia funcional através da marcenaria e dos fechamentos de alvenaria que corrigem as irregularidades da arquitetura original. O articulador da planta é o volume cilíndrico de geometria expressiva e tom bordô. Posicionado estrategicamente, o cilindro não é apenas uma divisória, mas uma âncora visual de onde partem as “artérias” do restante do estúdio. Sua altura é propositalmente inferior ao pé-direito generoso do espaço, encaixando-se com precisão sob a viga principal que secciona o espaço em duas alas. Esta solução cria uma silhueta horizontal que respeita a estrutura histórica enquanto evidencia a intervenção contemporânea.


O elemento revela-se multifuncional: no interior, acolhe a atmosfera reservada do banheiro; na face externa, a curvatura ganha uma seção esculpida — um recorte que acomoda a bancada de estudo. Revestido integralmente em peças cerâmicas vermelhas, da Keramika, a superfície da parede desdobra sua materialidade para o forro, criando um plano rebaixado que confere uma escala mais acolhedora e introspectiva. É uma arquitetura de gestos que guia o passeio de forma intuitiva, conduzindo o corpo e o olhar.


A base sobre a qual essa história se desenrola é, por si só, um elemento de preservação. O piso original em tacos de madeira do edifício histórico foi mantido, servindo como um lembrete tátil das décadas passadas. O forro, em duas águas, com vigamento aparente e réguas de madeira que resgatam o arquétipo da casa tradicional — a imagem universal da morada como abrigo seguro. As paredes, finalizadas em textura com pintura de tom suave, funcionam como uma tela silenciosa, preparada para receber o mobiliário de personalidade acentuada. No acabamento, o rodapé ganha peças cerâmicas alternadas, como um barrado que percorre todo o perímetro.


Na área de convivência, o Estúdio Semibreve revela sua faceta multifuncional: o espaço social é ancorado por uma cozinha monolítica que renuncia à frieza meramente utilitária para abraçar o ato de receber. Na parede principal, a marcenaria generosa, executada pela Todeschini, atua como o horizonte funcional. Este móvel contínuo não apenas organiza as atividades de cocção e armazenamento, mas transita como aparador social, um bloco de cor presente. 


A paleta cromática deste setor é regida pelo acabamento em tom esverdeado — lançamento da Todeschini em lâmina de carvalho natural tingida, Giardino. Sobre a base, a bancada em quartzito Da Vinci polido eleva-se como plano de fundo. É neste percurso que a música, pilar biográfico do estúdio, ganha morada: a bancada prolonga-se para acolher um aparador dedicado à vitrola, com gavetas que guardam a coleção de discos de vinil originais da mãe da arquiteta. Ainda na marcenaria, um nicho para o bar. 

Na área superior do móvel, um sistema de iluminação indireta valoriza a inclinação acentuada do forro, destacando a madeira e a amplitude do pé-direito.


Na sala de estar, abre-se mão da hegemonia da televisão para valorizar a escuta e o diálogo. O mobiliário busca, como um abraço, o aconchego através de contornos orgânicos, exemplificados pelo sofá modular Amana, com desenho de Nildo José para a Líder Design, revestido em tecido Nazca, da Donatelli. Ao fundo, totem exibe escultura floral, enquanto a curadoria assume-se, em grande parcela, como um manifesto da força feminina no design nacional: poltrona Bowl de Lina Bo Bardi, mesa de apoio Cúruma assinada pela Cristiana Bertolucci para Dpot; além de mesa de centro Retalhos, uma colaboração entre Assimply Studio, Maurício Arruda e Retropy para MAU.


O setor de jantar segue a lógica das formas puras com a mesa Arezzo em laca azul claro, da Líder Design, rodeada por conjunto de cadeiras Girafa, por Juliana Vasconcellos, e pendente do projeto Jalapoeira Apurada — uma peça confeccionada em capim-dourado pelo trabalho manual de artesãs quilombolas. Nas obras de arte, a cena feminina dá continuidade: xilogravura de Maria Bonomi (1935) na sala de estar; e telas de Jandyra Waters (1921-2025); Navegante Tremembé (1960) no dormitório; e Fernanda Gomes dos Santos no banheiro.


A narrativa do espaço é também um tributo às heranças profissionais e aos diálogos que moldam o olhar de Nahas. A produção de decoração do ambiente contou com a colaboração ativa do arquiteto Maurício Arruda, figura central na trajetória de Clara, com quem mantém uma sólida relação de amizade desde os anos de colaboração em seu escritório paulistano. Este intercâmbio criativo traz ao projeto uma camada de brasilidade e rigor curatorial. O olhar compartilhado entre os dois profissionais reflete-se na busca por uma estética que privilegia a força do design feminino e a valorização de artistas brasileiras.


No dormitório, serenidade é a palavra de ordem, mas sem abdicar da personalidade cromática que rege o conjunto. A iluminação indireta assume o papel de protagonista, filtrada delicadamente por cortinas de tecido sobre os caixilhos originais, e também da calha que se curva como continuidade da parede, onde a luz artificial enaltece a geometria da cobertura. Uma cabeceira estofada que serve de base para a cama da Líder Design, enquanto o tapete Morroco Damkla da Botteh adiciona conforto para o descalçar. Nas laterais, o painel ripado de madeira sustenta um par de mesas de cabeceira suspensas, desenhadas sob medida para reforçar a sensação de leveza. Sobre elas, abajures garimpados, enquanto a profundidade do elemento de marcenaria serve de apoio para livros.


Na lateral, o closet da Todeschini ocupa toda a parede, estabelecendo uma relação direta com o volume cilíndrico. A marcenaria ganha fechamentos em vidro.


É nesta transição que o volume cilíndrico bordô revela sua maior complexidade funcional. Na face voltada para o quarto, o elemento sofre uma seção precisa: abaixo da viga principal, cria-se um rebaixo que abriga um forro técnico e a bancada multiuso. Esculpido no próprio elemento arquitetônico, serve como escrivaninha para estudos musicais, ou ainda penteadeira. Acima, é coroado por uma dupla de prateleiras que exibe a coleção de ampulhetas. O objeto, recorrente nas memórias da arquiteta sobre a relação com sua mãe, surge como um lembrete poético da passagem do tempo e da necessidade de habitá-lo com presença.


Em apoio, a cadeira Manguezal, assinada pelo Maurício Arruda para Líder Design, e luminária de mesa Pelicano, da La Lampe. O contorno sinuoso e a cor dialogam diretamente com a feminilidade e a força buscadas.


Ao cruzar o limiar, entra-se no banheiro, onde a experiência de morar se transforma em ritual. O vermelho transborda para dentro, revestindo piso e teto em uma caixa monocromática imersiva. A paleta é complementada pelo mármore Napoleon Bordeaux levigado da bancada e do frontão. O gabinete, elevado alguns centímetros do piso, ganha acabamento em madeira, enquanto o espelho acima é ladeado por arandelas Cogumelo cromadas, da La Lampe. O chuveiro, instalado diretamente sobre a curvatura da planta, tira partido da geometria, enquanto as louças em acabamento Dark Antracite da Deca arrematam o conjunto.


Fundado em 2024, o Estúdio Clara Nahas concebe projetos que traduzem, com sensibilidade e inventividade, a trajetória e a essência de quem vivencia cada espaço. Sediado em São Paulo, o escritório tem a autenticidade como premissa. Através de uma investigação profunda de proporções volumétricas e materialidades expressivas, a equipe formula uma linguagem singular para cada obra, equilibrando apuro estético e bem-estar.


À frente da prática, Clara Nahas graduou-se em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) em 2015. Sua jornada profissional teve início no mesmo ano, integrando equipes de premiados escritórios de arquitetura e interiores na capital paulista, onde consolidou seu repertório técnico na cidade que adotou como base criativa.


Como desdobramento natural da identidade autoral e maturidade investigativa, o estúdio celebra sua estreia na CASACOR São Paulo 2026, materializando sua visão do morar contemporâneo.


Contato: contato@claranahas.com Instagram: @clara.nahas 


Sobre a CASACOR

A CASACOR São Paulo é a mais completa plataforma cultural de arquitetura, paisagismo e design de interiores das Américas. O evento reúne, anualmente, renomados arquitetos, decoradores e paisagistas e em 2026 chega à sua 39ª edição em São Paulo, no Parque da Água Branca.


Onde: Parque da Água Branca - Rua Dona Ana Pimentel, s/n portaria G4 do PAB Quando: de 02 de junho a 09 de agosto de 2026 Horário de funcionamento do evento: Terça a domingo, das 11h às 22h Horário bilheteria: Terça a domingo*, das 11h às 20h15*Fechamento da bilheteria física 15 minutos após o último horário. A visita poderá acontecer até às 22h.

Valores ingressos: De terça a domingo e feriados - R$141,00 (inteira) e R$ 70,50 (meia entrada)

Compra de ingresso de meia-entrada:- Idoso a partir de 60 anos;- Estudante apresentando o documento válido com foto ou recibo de pagamento;- PNE (portador de necessidade especiais) e seu acompanhante (conforme lei 12.933/13);- Professor da rede pública e privada, apresentando o documento válido com foto.* Promoção de pré-venda não válida para meia entrada* Comprovação de meia-entrada será exigida na porta.

Importante: Gratuidade de entrada para crianças com idade comprovada de até 10 anos.1 (um) CPF pode comprar no máximo 10 ingressos.Venda Grupo: Compras acima de 10 ingressos ou por CNPJ, envie e-mail parabilheteriacasacor@abril.com.br


 
 

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