José Navarro apresenta “Living Origens” em sua terceira participação na CASACOR SP
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O ambiente propõe uma reflexão sobre consumo, significados e o papel da arquitetura no habitar contemporâneo
Texto: Denise Delalamo Comunicação Fotos: MCA Estúdio

Em sua terceira participação na CASACOR São Paulo, o arquiteto José Navarro, à frente do Atelier Navarro Arquitetura, apresenta o Living Origens como um espaço que ultrapassa o conceito estético para se afirmar como posicionamento crítico. Alinhado ao tema “Mente e Coração”, o projeto nasce de uma pesquisa contínua desenvolvida ao longo da trajetória do arquiteto, iniciada ainda na formação acadêmica e aprofundada durante sua passagem pela Universidade de São Paulo. O espaço de 80m² materializa questões que acompanham o arquiteto em sua prática profissional, refletindo sobre como consumo, valor simbólico e arquitetura se entrelaçam no cotidiano.
Mais do que desenvolver um ambiente expositivo, Navarro constrói uma narrativa que explicita e tensiona os códigos que orientam o desejo e as escolhas no habitar contemporâneo. Inspirado pela teoria dos signos de Jean Baudrillard e sociedade de consumo de Zygmunt Bauman, o projeto parte do princípio de que não consumimos apenas objetos ou espaços, mas os significados que eles carregam. Assim, decisões aparentemente técnicas ou estéticas, da escolha de materiais à seleção de mobiliário, revelam camadas simbólicas que influenciam diretamente a forma como percebemos valor. O living se apresenta como cenário articulando uma estética envolvente a um discurso que questiona o papel do arquiteto, as dinâmicas do mercado e a maneira como clientes e sociedade enxergam a arquitetura.

Logo na entrada, uma grande estante em tom terracota estabelece um gesto provocativo ao homenagear Isay Weinfeld, ao mesmo tempo em que introduz elementos como plantas artificiais e falsos “prêmios de sustentabilidade”, questionando discussões sobre o olhar do outro. No começo do percurso, a cadeira Sobrepor lançamento da SP arte 2026 do Estudio De La Cruz com Domingos Totora, está posicionada junto a duas obras de Franz Weissmann, que demonstram sua busca pela síntese entre forma, espaço e equilíbrio, criando um contraste entre o consagrado e o contemporâneo. Esse contraponto continua ao entrar no living, onde a obra “Batendo Corpos” do artista mineiro Desali, feita especialmente para o espaço, continua a sequência nesse contraponto da intervenção da entrada, utilizando-se do trabalho de um jovem artista que parte da observação do cotidiano e materialidade da madeira para construir sua obra. O contraste entre essas abordagens amplia a leitura do espaço e reforça sua camada discursiva.
“Posicionamos propositalmente as obras do Weissmann, um artista moderno na entrada, criando uma narrativa onde a arte moderna consagrada está abrindo espaço para os artistas mais recentes. Quero que seja um reflexo da narrativa pensada para o ambiente” diz Navarro.

Uma grande estante no living, reúne diferentes obras de arte, ampliando a conversa proposta pelo ambiente. Com uma curadoria de nomes contemporâneos que variam entre novos no mercado e artistas consolidados, o arquiteto transforma a estante interna em uma galeria de arte, intervenções de nomes como Tunga, Elisa Arruda, Marilá Dardot, Ana Vitoria Mussi, Amalia Giacomini, Ricardo Homen, Michelle Rosser, Eduardo Fonseca, Thaís Helt, José Bento, Maria Lira, Estela Sokol, Leopoldo Martins, Nydia Rocha, Martin Parr, Raul Mourão, Laura da Vinci, Nelson Leirner e a gravura em metal intitulada “Algumas Casas” de Nazareno. Logo ao centro, temos uma grande obra de Andrey Rossi que foi desenvolvida inédita para o espaço a partir da interpretação do projeto pelo artista. Sendo os únicos artistas modernistas na estante, as esculturas de Amílcar de Castro e Sonia Ebling pertencem à coleção privada do arquiteto, e foram posicionadas como forma de demonstrar a harmonia entre o conceito e a arte. Esses elementos não são apenas estéticos, eles acrescentam peso cultural ao ambiente, e também contam uma história com conceitos, sobre arte e signos.
O mobiliário reforça essa construção crítica e simbólica. Entre os destaques estão a icônica Poltrona Favela, dos irmãos Campana, entendida como um marco do design brasileiro contemporâneo, além de peças assinadas por Lina Bo Bardi, poltronas Envelope da + 55 e sofá da mesma marca. O ambiente também incorpora obras e objetos de diferentes naturezas, como as caixas do jovem artista Marcos Roberto e a mesa de dados desenvolvida por Nazareno para uso em seu próprio ateliê, trazendo ao espaço uma dimensão mais autoral e processual. Ao canto do ambiente, o destaque vai para a obra “Filmes de Raio x”, pertencente a própria coleção privada da plástica Nazareth Pacheco, que utilizou suas radiografias como matéria-prima para a intervenção, contando uma história sensível sobre memória, a dor, e a sobre ressignificar.
O ambiente também traduz dimensões pessoais, o piso e a lareira de pedra-sabão, feitos a partir de um bloco escolhido na pedreira pelo arquiteto, que evoca suas origens mineiras, enquanto a presença marcante da arte revela a conexão do escritório com o universo artístico e reforça a arquitetura como meio de expressão e reflexão, os materiais naturais usados de destaque como pedra e madeira ajudam na narrativa do projeto. No living, uma grande obra da artista Niura Bellavinha, que pertence a uma coleção particular, foi um dos pontos de partida do projeto e cria harmonia com a paleta de cores. Na mesa de centro, a obra “Xeque Mate” de Nelson Leiner está posicionada ao lado da obra “Manual de Primeiros Socorros”, de Adriana Varejão. A curadoria se completa com a obra “Dipico”, de Marilá Dardot, que fotografou a mão de trabalhadores da construção civil e pediu para que eles escrevessem sobre seus desejos – uma obra especialmente simbólica para uma exposição de arquitetura.

O projeto é um trabalho que traduz a conexão do escritório com o mundo da arte, com consumo contemporâneo, as discussões de arquitetura, como enxergamos e somos vistos. O revestimento Akafloor Milano, em Cumaru, também está presente na composição do living. Aplicado com destaque, o ripado contribui para a construção da atmosfera proposta pelo arquiteto, reforçando a presença da madeira como elemento que aproxima a sofisticação e o acolhimento dentro da narrativa.
Mais do que uma proposta de morar, o Living Origens se posiciona como uma reflexão sobre o papel do arquiteto e as expectativas que recaem sobre a profissão, especialmente em contextos como a CASACOR. Ao evidenciar práticas comuns do mercado e questionar a superficialidade de certos discursos, o espaço convida o visitante a reconsiderar o que, de fato, significa sustentabilidade, valor e permanência. Entre razão e sensibilidade, o projeto propõe um retorno às origens não como nostalgia, mas como ferramenta crítica para repensar o presente.
CASACOR São Paulo 2026
Data: 2 de junho a 9 de agosto
Local: Parque da Água Branca - Rua Dona Ana Pimentel
Mais Informações: www.casacor.com
Facebook: www.facebook.com/casacoroficial
Instagram: @casacor_oficial















