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Casa do Parque IV

  • há 2 horas
  • 4 min de leitura

A recuperação de uma casa centenária, num exercício de memória, identidade e pertença


Texto: Revista Habitare Fotos: Ivo Tavares



A Casa do Parque IV nasce da recuperação sensível de uma habitação do início do século XX, desenvolvida para um casal profundamente ligado à cultura, às viagens e às experiências vividas ao longo dos anos no Médio Oriente.


Mais do que uma intervenção arquitetónica, o projeto assume-se como um exercício de memória, identidade e pertença, fortemente influenciado pela relação emocional do casal com a cidade de Santo Tirso.


Com aproximadamente 375 m² de área, a casa foi concebida como um espaço de encontro e partilha, uma habitação pensada para receber amigos e família de forma descontraída, onde a autenticidade da construção original convive naturalmente com uma abordagem arquitetónica contemporânea e profundamente intimista.


“O processo começa sempre com as pessoas”, afirma Ricardo Azevedo, fundador do atelier Ricardo Azevedo Arquiteto. Se, para os envolvidos, respeitar a pré-existência do espaço era uma forma de manter vivas as memórias das pessoas que ali viveram, havia também uma necessidade de refletir os gostos de quem vai habitar a casa. “Acredito que a arquitetura nasce da empatia. Interesso-me por quem são, como vivem, o que valorizam”, acrescenta Ricardo Azevedo.


Os atuais proprietários procuraram o atelier de arquitetura, que já tinha feito algumas intervenções nessa mesma rua, porque tinham o objetivo de viver naquele lugar específico. Trata-se de uma zona particular de Santo Tirso, junto ao lado norte do Parque D. Maria II, com “uma frente urbana marcada por casas burguesas de finais do século XIX e início do século XX, com lotes estreitos.”


A intervenção procurou preservar a essência histórica da habitação, valorizando os elementos com maior significado patrimonial e emocional.



Na fachada principal foram mantidos os revestimentos cerâmicos originais e as janelas existentes, reforçando a continuidade da identidade arquitetónica da casa e preservando a sua presença urbana.


Em contraste, o novo volume acrescentado no piso superior afirma-se através de uma linguagem assumidamente contemporânea, revestida integralmente a zinco. Esta materialidade introduz uma leitura clara entre passado e presente, estabelecendo um diálogo equilibrado entre memória e intervenção. A mesma abordagem foi prolongada para a fachada tardoz, onde o revestimento em zinco desenha uma composição mais depurada e contemporânea, libertando-se das condicionantes patrimoniais presentes na frente da habitação.


Nas traseiras da propriedade, uma antiga construção em ruína foi cuidadosamente integrada no projeto, permitindo criar uma dinâmica espacial entre os diferentes volumes e enriquecendo a relação entre arquitetura, circulação e espaços exteriores. Grande parte da identidade da casa nasce da influência subtil das referências culturais associadas ao Médio Oriente.



O projeto evita qualquer interpretação literal ou decorativa dessas influências, optando antes por uma abordagem mais sensorial e contemporânea. Texturas, tonalidades, padrões e materiais foram reinterpretados de forma delicada ao longo dos diferentes ambientes, criando uma linguagem visual muito própria e profundamente pessoal. Os apontamentos cerâmicos presentes na entrada e nas áreas exteriores junto à piscina evocam discretamente essas referências culturais, estabelecendo uma continuidade visual entre arquitetura, arte e memória.


A composição exterior foi desenhada para proporcionar uma atmosfera tranquila e acolhedora, onde os materiais tradicionais coexistem naturalmente com soluções contemporâneas. A parede lateral da piscina, pintada num tom verde intenso, surge como um elemento marcante da intervenção exterior, criando um contraste direto com a vegetação envolvente e reforçando a relação visual entre arquitetura e paisagem.



No interior, os espaços foram desenhados para transmitir serenidade, conforto e autenticidade. As paredes de pedra da construção original foram cuidadosamente recuperadas e limpas, revelando a textura e a materialidade histórica da habitação. Em contraponto, as novas superfícies receberam tonalidades suaves próximas de “café com leite”, complementadas pela utilização contínua de madeiras claras que ampliam a sensação de tranquilidade e luminosidade.


A organização funcional da casa foi pensada de forma clara e intuitiva. O piso térreo foi concebido como a principal área social da habitação, um espaço dedicado ao convívio, à receção e à partilha entre família e amigos. Já o piso superior foi reservado à área mais privada da casa, inicialmente desenhada para as filhas do casal. Esta atmosfera mais íntima prolonga-se através da utilização de tons de rosa no piso superior, introduzindo delicadeza e personalidade aos ambientes.


Um dos elementos mais marcantes do projeto é a escadaria amarela que estabelece a ligação entre os diferentes pisos da habitação.


Assumida como um gesto arquitetónico expressivo, a sua presença introduz ritmo, identidade e irreverência ao interior da casa. A escolha cromática foi inspirada diretamente nas tonalidades presentes no atelier do arquiteto, criando uma ligação subtil entre o universo criativo do autor e a vivência quotidiana da habitação.



Na zona inferior da casa, revestida integralmente a microcimento, a linguagem arquitetónica torna-se mais sóbria e contemporânea. Este espaço acolhe uma sala de cinema e uma área expositiva dedicada aos prémios conquistados por um dos membros do casal, transformando a cave num ambiente simultaneamente privado, cultural e contemplativo.


Ao longo de toda a intervenção, materiais tradicionais e contemporâneos coexistem de forma equilibrada e intencional. A pedra original recuperada, a cerâmica preservada e o zinco das novas volumetrias estabelecem uma relação constante entre passado e presente, reforçando a identidade singular da habitação.



Mais do que uma simples reabilitação, a Casa do Parque IV representa um exercício de continuidade entre memória, cultura e contemporaneidade, uma casa profundamente pessoal, onde arquitetura, vivências e identidade se fundem numa linguagem intimista, sensorial e intemporal.


Ficha Técnica: Arquiteto Responsável: Ricardo Silva Azevedo I Engenharia: Fénix Engenharia Civil I Paisagismo: Ricardo Azevedo Arquitecto I Projeto Luminotécnico: Ricardo Azevedo Arquitecto

 
 

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