top of page

A sociedade que transformou o tear manual em um negócio de alcance internacional

  • há 20 minutos
  • 3 min de leitura

À frente da Cia das Fibras, Antonio Cunha e Alberto Dias construíram uma parceria empresarial baseada em perfis complementares e na valorização da tecelagem manual brasileira.


Texto: Redação Habitare Fotos: Christina Rufatto



Para compreender a trajetória da Cia das Fibras, é preciso começar pela sociedade que sustenta a empresa há 27 anos. Alberto Dias possui um pensamento essencialmente criativo, enquanto Antonio Cunha procura dar contorno operacional às ideias. Essa distribuição de papéis surgiu de forma espontânea e definiu a maneira como os dois passariam a conduzir o negócio. “O Alberto trazia toda a parte criativa, algo muito natural para ele. Eu vinha com o olhar da organização e da ponderação”, conta Antonio.


Antes desse encontro, suas trajetórias apontavam para caminhos distintos. Antonio atuava como dentista. Alberto havia trabalhado na Polícia Rodoviária e estudado design de interiores. A aproximação ocorreu quando reconheceram um perfil empreendedor em comum e perceberam que poderiam construir algo juntos. “O que nos aproximou foi justamente esse empreendedorismo que já existia em nós”, afirma Antonio. A complementaridade, identificada ainda no início, tornou possível transformar a disposição para empreender em uma sociedade duradoura.


Antonio Cunha
Antonio Cunha

Naquele momento, os tapetes artesanais ocupavam um espaço restrito no mercado brasileiro de decoração. A produção sob medida também era pouco explorada. Os primeiros contatos com arquitetos e designers de interiores mostraram que havia demanda por peças personalizadas e confirmaram a leitura dos novos sócios. A resposta do mercado validou o produto, mas também revelou a capacidade dos dois de identificar uma oportunidade ainda pouco disputada.


Os pequenos lotes comercializados em feiras paulistas deram origem a uma operação que hoje possui capacidade produtiva superior a 1.500 metros quadrados de tapetes por mês. A Cia das Fibras passou a atender projetos em todo o país e chegou ao mercado internacional. Os números dimensionam o crescimento, enquanto a permanência do tear manual revela a decisão empresarial que orientou essa expansão. Para Alberto, a construção da marca sempre esteve vinculada ao respeito pelo tempo do fazer e pela cultura que deu origem ao produto.


O principal desafio estava contido na própria proposta do negócio: ampliar a operação preservando o caráter artesanal. Ao longo do tempo, os sócios compreenderam que administrar uma fábrica formada por artesãos exigia uma dinâmica diferente daquela encontrada em uma linha industrial. “Quando trabalhamos com o manual e com artesãos, estamos trabalhando com arte e com artistas. A gestão precisa considerar isso e trazer um olhar mais humano”, diz Antônio.


A preocupação com a continuidade do ofício levou os sócios a criar uma escola preparatória para jovens aprendizes dentro da fábrica, em Campanha, no sul de Minas Gerais. A iniciativa forma profissionais para trabalhar com o tear e funciona como estratégia de continuidade do próprio negócio. Ao priorizar trabalhadores da região, Antonio e Alberto também vincularam o desenvolvimento da empresa à comunidade que participa de sua produção.Essa valorização do conhecimento local ajuda a explicar outro princípio mantido pelos empresários desde o início.


Alberto Dias
Alberto Dias

A produção permanece integralmente no país, sustentada pela confiança no design brasileiro e na capacidade dos artesãos. Quando atravessou fronteiras, a Cia das Fibras levou consigo essa identidade, que chegou ao mercado internacional sem apagar o sotaque de origem.A sustentabilidade integra esse mesmo modo de pensar. Muito antes de o tema ocupar relatórios empresariais, algumas dessas preocupações já estavam inscritas na arquitetura da fábrica. O galpão foi concebido para aproveitar a iluminação natural e, com o tempo, passou a operar com energia solar. O tratamento de esgoto adotado na unidade reforça uma visão que nasceu junto com a empresa e se transformou em prática cotidiana.


Passados 27 anos, a atenção de Antonio e Alberto se volta para aquilo que permanecerá. A formação de novos artesãos responde ao risco de desaparecimento da tecelagem manual e cria condições para que esse conhecimento continue em movimento. Na lógica construída pelos empresários, preservar o ofício também significa preparar o futuro. A longevidade dessa sociedade parece residir justamente aí: na capacidade de construir juntos algo feito para durar.

 
 

Leia também

bottom of page