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Saberes preservados

Atualizado: 24 de abr. de 2025

A riqueza da mineira Tiradentes hoje está nos saberes preservados de seus moradores no artesanato e na gastronomia


Se, no passado, a riqueza da mineira Tiradentes estava na exploração do ouro, hoje, são os conhecimentos de seus moradores no artesanato e na gastronomia, que fazem os olhos de todo o mundo reluzirem, tornando a cidade o lugar perfeito para uma escola de ofícios.



A famosa receita de doce de leite, as técnicas do entalhe em madeira e pedra-sabão, aquele chazinho de ervas que cura tudo e até o forno feito de cupinzeiro para substituir a falta de forno na roça. Conhecimentos dos antigos, que foram passados de avós para filhos e netos e que fazem com que a importância da cidade histórica de Tiradentes, em Minas Gerais, vá além do casario colonial preservado e tombado pelo patrimônio histórico. O ouro de Minas, agora, é a sua gente.



Nesse cenário, surgiu, há seis anos, a Semana Criativa de Tiradentes, um projeto que promove, anualmente, vivências entre designers convidados do Brasil inteiro e artesãos locais para trocarem conhecimentos, discutirem processos criativos e idealizarem produtos feitos à mão com técnicas ancestrais, mas com pitadas de inovação. “Ao participar das imersões, vivenciamos uma grande transformação, transgredimos as possibilidades, exploramos novos repertórios, inventamos ferramentas, misturamos matérias-primas…”, diz a arquiteta Maraí Valente, uma veterana do projeto. E completa: “quando o trabalho se conclui é que vemos aflorar a trajetória autoral e única de cada artesão, daquele processo que só ele viveu, aprendeu e construiu.”



No livro “Design + Artesanato, o caminho brasileiro” (editora Terceiro Nome), da jornalista Adélia Borges, a autora aponta a união desses dois universos como uma possibilidade de se criar um design verdadeiramente brasileiro. É, ainda, uma oportunidade de resgatar e manter saberes e fazeres de tradição, que andam ameaçados pela falta de interesse dos jovens em dar continuidade a ofícios que estão presentes a gerações em suas famílias. E isso acontece pela falta de valorização. Crianças que crescem vendo seus familiares criando, produzindo e sendo admirados e respeitados pelo que fazem têm mais chances de seguirem na profissão.


O projeto da Semana Criativa culmina num festival de mesmo nome, que acontece todos os anos em outubro, em Tiradentes, e que reúne pessoas vindas de norte a sul do país para viverem quatro dias de imersões em palestras, bate-papos, oficinas, exposições, instalações, lançamentos de livros e outras atividades.



Tudo isso com o objetivo de valorizar e divulgar nossa história e cultura. O mergulho nessa experiência de Brasil profundo tem despertado o interesse cada vez mais constante de designers e arquitetos a participar do projeto, que convida um número limitado de pessoas. Na primeira edição do festival, em 2017, o designer Paulo Alves plantou a semente da necessidade de uma escola, que se voltasse para a união do design com o artesanato. Não de uma forma colonizadora, onde o acadêmico ensina para o detentor de um saber popular. Mas, num formato horizontalizado, no qual ambos, designer e artesão, tenham a mesma importância no compartilhamento do conhecimento. “Conjugar a arte popular e o artesanato ao design é fundamental, e não pode ficar restrito a apenas um evento anual. Tem que ser uma escola que funcione o ano todo, todos os anos”, diz Paulo Alves.


A combinação visionária da arquitetura com artes e design, da Escola Bauhaus (1919 -1933), assim como os cursos de verão que unem arquitetura, design e natureza da Domaine de Boisbuchet, fundada em 1986, em Lessac, na França, são duas fontes de inspiração na construção dos cursos pensados para a escola.



A ESCOLA DA SEMANA É UMA REALIDADE


Ao final de 2021, surgiu, finalmente, a oportunidade de o sonho sair do papel e se instalar numa escola municipal de Tiradentes, localizada na comunidade da Caixa D’Água da Esperança, na zona rural. O espaço estava fechado havia seis anos por falta de alunos. E o imóvel, se deteriorando. Uma parceria foi firmada entre a Semana Criativa e a Prefeitura para que, em esquema de comodato, o espaço fosse ressignificado para abrigar a Escola da Semana. Uma rede de profissionais se formou para colocar a ideia de pé: os arquitetos Alexandre Rousset, Alexandre Salles, Bel Lobo, Ligia Agostini e Paulo Alves e os designers Ana Vaz e Paulo Biacchi. “A Semana Criativa para mim é, desde o primeiro encontro, a oportunidade de experimentar, aprender e reaprender a trabalhar coletivamente, de uma maneira fluida, que abre inúmeras possibilidades de desdobramentos e conexões. É um aprendizado o tempo inteiro. Eu amo fazer e me sentir parte disso tudo!”, conta Bel Lobo, responsável por angariar o time.



 
 

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