top of page

Arquitetura como narrativa: Apartamento Agissê transforma arte, literatura e memória em uma experiência do habitar

  • há 2 dias
  • 5 min de leitura

Projeto da H2C Arquitetura nasce de um processo colaborativo com a moradora, incorporando vitrais, obras de arte e referências literárias como parte da construção espacial


Texto: Revista Habitare Fotos: Pedro Kok



São Paulo, julho de 2026 - Há projetos que começam pelo desenho da planta, outros surgem lentamente, entre conversas, leituras, referências compartilhadas e pequenos gestos que, pouco a pouco, revelam novas possibilidades de habitar. No Apartamento Agissê, projeto de reforma conduzido pela H2C Arquitetura, em São Paulo, este processo foi sendo tecido como uma narrativa construída em conjunto por arquitetos e moradores, na qual literatura, arte, mitologia, materiais e memórias passaram a compartilhar uma mesma linguagem espacial.



Neste percurso, o apartamento transformou-se em um território de criação, onde cada elemento singelamente encontra seu lugar como parte de uma história maior, simbolizando e traduzindo afinidades, memórias e poéticas únicas.


Artista plástica, a moradora reuniu, durante o desenvolvimento do projeto arquitetônico, conjuntos de textos, imagens, referências e um memorial afetivo que acompanharam as soluções adotadas pela equipe de arquitetura.


Com encontros atravessados por conversas sobre desenho, viagens, carpintaria japonesa, música, objetos e contos tradicionais brasileiros, tomava forma a concepção e o sentido desse novo lar, emoldurando-o, preenchendo-o com simbologias e sentidos, alinhando-o cada vez mais aos propósitos e valores dos moradores.



Esse repertório generosamente ampliado pelas contribuições compartilhadas pela família, orientou uma investigação projetual interessada em traduzir espacialmente esta maneira de viver, permitindo que a arquitetura refletisse a delicadeza, as inquietações e o universo criativo de seus moradores, sem recorrer a interpretações genéricas.


Uma das narrativas que permeou esse processo ganhou forma no lavabo. A escolha do piso nasceu do antigo conto indígena de Naiá, jovem que, fascinada pela deusa Jaci, mergulha no reflexo da lua sobre as águas e transforma-se na vitória-régia. O desenho do ambiente procura evocar esse instante silencioso em que água e luz parecem se tocar. A luminária projeta sobre o revestimento verde do piso um brilho que remete ao reflexo da lua sobre os rios que Naiá observava.



O espelho, executado em chapa metálica dobrada, fragmenta a imagem e multiplica os reflexos, produzindo uma percepção móvel do espaço. Seu desenho dialoga diretamente com a solução da fachada do edifício onde o apartamento se situa, o conjunto Onze22, projeto do Triptyque Arquitetura para a ideal!Zarvos.


A luz também conduz a principal intervenção da área social. Ums composição de vitrais em vidro soprado organiza a transição entre os ambientes, permitindo que transparências, bolhas, ondulações e tonalidades âmbar filtrem a iluminação natural que atravessa a sala ao longo do dia.



A inspiração para esse conjunto de elementos surgiu de uma reflexão da própria moradora sobre o significado da casa como um lugar fértil, onde ideias, afetos e experiências encontram espaço para germinar. Como uma semente que guarda em si a potência do que ainda está por vir, os vitrais, de diversas dimensões e formatos, acompanha o movimento da luz natural e transforma continuamente a atmosfera dos ambientes, criando sucessivas camadas de profundidade, transparência e permanência.


Assim, a vivência nas áreas coletivas torna-se particular a cada dia, hora, minuto, esmiuçando novas maneiras de enxergar o calor do piso de madeira, a tranquilidade que repousa nos mobiliários, a agitação que adormece nas peças de artes. A luz é capaz de reinterpretar cada milímetro do novo lar através da cor esmaecida, do brilho sereno e da intensidade difusa dos vitrais coloridos.



Na cozinha, o balcão e parte da marcenaria receberam um mosaico produzido com pastilhas Vidrotil provenientes do remanescente de produção de uma fábrica desativada, outra composição de elementos que se utiliza de tons calmos de verde e azul para as áreas coletivas. Essas peças coloridas compõem uma superfície que lembra uma aquarela, enquanto preservam a memória de sua origem em um novo conjunto, que lhe atribui um novo sentido e contexto de uso.



O projeto também incorporou um espaço pensado para acompanhar a produção artística da moradora. Os desenhos em carvão ocupam as paredes por meio de um sistema expositivo inspirado nas soluções adotadas por museus e galerias, permitindo que as obras sejam constantemente reorganizadas e estabeleçam novas relações entre si conforme a distância, o percurso e o olhar do observador nos diversos ambientes. O apartamento passa, assim, a acolher um acervo em permanente transformação, fazendo da arquitetura um suporte ativo para a criação e para a experiência cotidiana da arte como parte essencial do habitar.


Em todo o apartamento, objetos e referências pessoais reforçam a dimensão compartilhada desse processo. Livros, decorações, quadros, fotografias e, entre eles, o banco produzido pelo mestre marceneiro Morito Ebine, que ocupa um lugar especial. Presente na residência e posteriormente oferecido pelos moradores à arquiteta ao final da obra, o objeto tornou-se um símbolo da relação construída entre equipe de projeto e habitantes ao longo do desenvolvimento de projeto. Uma síntese material desta experiência única, marcada, em ambas as partes, pela confiança, pela escuta e pela generosidade, qualidades que foram transmitidas com cuidado e orientação para todo o projeto da arquitetura de interiores.



Como parte desse processo, o registro íntimo das fotografias de Pedro Kok acompanham esse mesmo olhar atento às pequenas convivências cotidianas no novo morar. Realizadas com uma câmera analógica, procuram registrar aquilo que muitas vezes escapa à descrição objetiva, a luz repousando sobre o vidro soprado, as sombras desenhadas pelo carvão das obras de arte, os reflexos fragmentados do espelho, a textura dos materiais e os instantes de silêncio que atravessam a casa. Não documentam apenas os espaços, mas também a atmosfera construída entre eles, revelando uma arquitetura que encontra sua maior expressão nos intervalos, na passagem da luz e nas camadas sensíveis que o tempo deposita sobre o habitar.


Ficha técnica

Categoria: Interiores

Data: 2024

Área: 140m²

Local: Vila Madalena, São Paulo, SP, Brasil

Autoria: H2C Arquitetura

Colaboradores: Helena Camargo, Victor Algranti, João Serejo, Livia Rossato

Imagens: Pedro Kok


Sobre a H2C Arquitetura

Fundada em 2006, a H2C vê na arquitetura uma ferramenta capaz de aproximar pessoas e potencializar experiências coletivas, com uma prática que parte da colaboração, da escuta e do olhar sensível para tudo que permeia as relações humanas, seja no morar, no conviver ou na escala urbana.


O escritório é comprometido com a investigação e tem como prerrogativa o rigor técnico, a experimentação e a liberdade criativa, que sustenta toda a prática de ateliê.


A chegada de João Serejo e Victor Algranti como sócios, ao lado da sócia-fundadora Helena Camargo, marca um momento de expansão e amadurecimento do escritório, com projetos que valorizam a madeira no contexto urbano e traduzem uma sofisticação simples e atemporal.


O movimento reafirma a visão da arquitetura como prática colaborativa e multidisciplinar, enquanto o escritório segue expandindo sua atuação em diversos programas e escalas, como habitação, cultura, educação e território.


 
 

Leia também

bottom of page