27/06/2016 — Texto: Tiana Ribeiro | Fotos: Divulgação

O espírito do extremo sul.

Apresento-lhes aqui um dos hotéis mais fantásticos que já vi, combinando luxo e arquitetura orgânica, um ambiente quentinho e aconchegante a nos receber após horas de caminhadas pelas deslumbrantes paisagens da Patagônia, uma língua de terra espremida entre os oceanos Atlântico e Pacífico. O hotel está localizado na extremidade sul do Chile, dentro do Parque Nacional Torres del Paine, que foi declarado Reserva da Biosfera pela UNESCO em 1978. No fim do mundo, ou quase.

A arquiteta chilena Cazú Zegers, especializada em arquitetura orgânica, assina o projeto junto com Rodrigo Ferrer e Roberto Benavente.

“Minha primeira reflexão foi como construir um prédio neste lugar sem prejudicá-lo e, se possível, potencializar o lugar com o edifício. Passamos o dia percorrendo o lugar, fazendo desenhos e entendendo como era a região. Havia pequenos morros e muitas formas desenhadas pelo vento. Percebi que a energia mais forte ali era a desse elemento natural e que o hotel teria que ser concebido a partir de formas que o vento desenha”, diz Cazú.

O resultado se concretizou em apenas dois andares: visto de fora ele parece camuflar na paisagem, humildemente, apenas contemplando o cenário à sua frente: o lago Sarmiento e o maciço Torres del Paine, o mesmo cenário que podemos ver de todos ambientes internos, salas de descanso e leitura, restaurante, piscina, spa e até dos seus 40 quartos, que, aliás, não têm TV! – pra quê?

Tudo nele foi pensado para incluir sem agredir, aproveitando todos os materiais que a região oferece, até porque a cidade mais próxima dali está a mais de uma hora, fazendo com que os 300 operários envolvidos na obra tivessem que ficar em um acampamento, enfrentando frio e vento de até 120 km/h, inclusive, esquentando a água para fazer o concreto a fim de evitar fissuras. Sua estrutura é de concreto armado, com teto em vigas de pinho laminado e tábuas de lenga (uma madeira típica da região). A cobertura térmica feita em poliestireno expandido possibilita uma temperatura mais agradável em seu interior, chegando a uma diferença de 9 graus. Toda a terminação é em lenga lavada para conseguir a coloração prateada característica das madeiras desgastadas pela água, como fica no inverno.

No interior também há muita madeira nos móveis, pisos, vigas, suportes e até troncos da lenga em estado bruto, rendendo homenagem aos mapuche, povo originário do local.

O projeto de decoração, assinado pelas designers Alexandra Edwards e Carolina Delíano, inclui peles e tecidos fabricados com lã das ovelhas e com desenhos tehuelches (de indígenas que ali viviam). Há uma enorme canoa kaweskar (também nativos) que flutua sobre o espaço que divide áreas de convívio com os quartos ou spa, nos convidando a uma viagem de relaxamento.

Uma grande lareira no centro da área de convívio nos mantém aquecidos enquanto apreciamos as belezas do entorno, programamos os passeios do dia seguinte ou mesmo nos deliciamos com a alta gastronomia servida com pratos típicos da região e enobrecidos pelos toques do chef. O sistema é all inclusive, com extensa lista de vinhos, bebidas típicas – não deixe de experimentar o Pisco Calafate, o tradicional Pisco Sour com licor de Calafate, frutinha vermelha da região. Há ainda um menu vegetariano disponível diariamente.

O Uma Spa oferece banhos a vapor, sauna, piscina aquecida, hidromassagem, cascata e uma jacuzzi ao ar livre, além dos tratamentos e massagens relaxantes.

Só pelo hotel já vale a viagem. Mas a filosofia do Tierra Hotels pede mais: “Heredamos una tierra sagrada y la cuidamos para sea un legado. Sé parte de este viaje.”, então ele nos oferece inúmeras excursões para integração e exploração do meio, desde as mais leves até longas caminhadas de um dia inteiro, a pé, a cavalo, de bicicleta, tudo conforme o fôlego aguenta. As visitas são a montanhas, pampas, florestas, geleiras, rios, lagos e cachoeiras, todas elas acompanhadas por experientes guias, ensinando-nos a identificar pássaros, plantas e animais – há guanacos e ovelhas por todos os lados –, além de nos paparicar com lanchinhos e calafatinhas (cerveja!) quando a caminhada exige um pouco mais de esforço.

“Fizemos tudo para que as pessoas tivessem a chance de realmente vivenciar o lugar. O hotel acaba servindo como um apelo sensível para o homem contemporâneo, urbano, que está superdomesticado e, por isso, não pode estar sempre à intempérie, possa curtir de maneira confortável essa natureza mística e poderosa do Torres del Paine”, diz a arquiteta Cazú Sengers.

O hotel só funciona de setembro a abril, quando as temperaturas são mais amenas. Para chegar lá, voamos até Santiago (quatro horas) e depois para Punta Arenas (quatro horas e meia). Lá uma van já nos espera, com lanchinho e tudo, para mais quatro horas e meia de estrada. É, o fim do mundo é longinho, mas garanto que vale a pena conhecer! Fui e voltei com as energias renovadas, guardando na lembrança imagens e sensações de um dos lugares mais bonitos do planeta.

www.tierrahotels.com