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19a. Bienal de Arquitetura de Veneza 2025 – Intelligens. Natural. Artificial. Collective

Texto e fotos: Ludmila Tana Moron



“Para enfrentar um mundo em chamas, a arquitetura deve ser capaz de explorar toda a inteligência que nos cerca.” Carlo Ratti

 

Com esta certeza, o engenheiro e arquiteto Carlo Ratti estabeleceu um grande desafio pessoal ao realizar a curadoria para esta edição da Bienal de Arquitetura de Veneza. O evento que iniciou em maio de 2025 tem nos quase 300 projetos selecionados pelo curador a busca de “inteligências” de origens variadas para responder aos desafios climáticos que colocam em cheque o futuro do planeta. Portanto, engana-se quem deduziu que a inteligência artificial seria o centro da exposição, o tema se desenvolve através da busca de conhecimentos existentes, trazendo essa questão filosófica para a prática. Afinal, com quais dados a inteligência artificial é alimentada, senão com o que já é existente?

 

Como têm sido as últimas bienais, esta também promove uma busca multidisciplinar de soluções com foco na sustentabilidade, mas nesta edição há uma maior ênfase em relação ao enfrentamento do aquecimento global. O carbono zero passa a ser praxe, e as estratégias inovadoras são aquelas que além disso buscam a regeneração do meio ambiente.

 

“Quando os sistemas que guiam nossa compreensão começam a falhar, novas formas de pensar se fazem necessárias. Durante décadas, a resposta da arquitetura à crise climática centrou-se na mitigação: projetar para reduzir nosso impacto no clima. Mas essa abordagem não é mais suficiente”. Carlo Ratti

 

Caso você nunca tenha visitado esta Bienal, saiba que ela se divide em duas partes: escolhas do curador e mostras nacionais. Esta é a nona edição que visito e a quantidade de projetos apresentados na primeira parte foi realmente impressionante. Com o Pavilhão Central da sede Giardini em reforma, ela concentrou-se somente na sede Arsenale. Uma vasta apresentação de teorias, utopias e distopias para estimular a discussão de um novo futuro.

 

As ideias vão desde repensar a limpeza das fachadas dos edifícios, em favor da manutenção da bio-pátina, favorecendo a proteção térmica, até a purificação da água da laguna vêneta para fazer café, projeto premiado com o Leão de Ouro 2025, de autoria do escritório Diller Scofidio + Renfro.

 

O tema água é bastante recorrente na mostra. Alguns projetos de destaque são o estudo do antigo e inteligente sistema de fornecimento de água napolitano, atualmente abandonado e substituído por um sistema ineficiente; a proposta para reintegração das águas do subsolo no deserto de Sonora e o Hyper Sponge de Kuala Lumpur, que facilita a retenção das águas de chuva para evitar inundações.

 

A madeira é o material da vez, matéria-prima de muitos projetos, mas não só, há estudos sobre as raízes, sobre as árvores, utilizando da geometria à biologia como inspiração construtiva. A questão da sustentabilidade em relação a reutilização dos edifícios passa para uma nova etapa, reutilizar o edifício não é mais suficiente, mas é preciso sistematizar a reutilização dos materiais, tendendo a descarte zero.

 

As impressoras 3d e o uso de IA generativa estão presentes em vários projetos, desde criação de habitats marinhos para ostras até produção de biofilamento a partir das cinzas dos incêndios acontecidos na Califórnia. Projetos sobre bioacústica e sobrevivência das populações não-humanas, mostram que ideias e pesquisas não faltam para encontrar soluções para os problemas do planeta que a arquitetura pode e deve afrontar.

 

Expõe um grande panorama de pesquisa de novos materiais naturais, renováveis e biodegradáveis como o micélio, conchas, mas sobretudo a terra, explorando diferentes soluções de tijolos que utilizam técnicas milenares aliadas à tecnologia de ponta. Não passa despercebido o contaste que há em utilizar impressoras 3d de última geração e altíssimo custo para construir projetos de barro. Seria uma gourmetização da construção em terra, já que o custo seria impraticável para popularizar o método? Ou a ideia é uma crítica ao árduo trabalho manual da construção civil?

 

A mostra tem uma parte introdutória que acontece em 3 atos:

 

“Porque nos contentamos com edifícios pouco estimulantes e que duram somente quarenta anos, se possuímos conhecimentos e habilidades para criar estruturas de tirar o fôlego que durariam por milênios.” - a partir desta questão, a vídeo instalação “Architecton” de Victor Kossakovsk faz uma provocação ao momento atual da arquitetura e o uso transitório do concreto.

 

Na sequência a instalação “Terms and Conditions” submete os visitantes ao desconforto do calor das unidades condensadoras utilizadas nos espaços expositivos da mostra, já alertando que em soluções paliativas há sempre alguém pagando a conta. No mesmo conjunto, “The Third Paradise Perspective”, a bela instalação da Fondazione Pistoletto Cittadell’arte, simboliza a criação coletiva como resposta ao futuro.



“The Other Side of the Hill”, elaborado por um grupo que conta com Patricia Urquiola, finaliza a introdução fazendo um paralelo entre o crescimento populacional de microrganismos e seres humanos, destacando a semelhança da curva de crescimento e questionando se o final da humanidade será como o dos microrganismos.

 

Na sequência o pavilhão do Arsenal se divide em 3 setores: Natural, Artificial e Coletiva.

 

Natural, o maior deles, é uma seleção de 120 projetos onde a natureza é o ponto de partida para reorientar a própria prática arquitetônica. Seria impossível citar todos eles, mas inclui vários arquitetos de renome internacional como Renzo Piano, Kengo Kuma e Jean Nouvel. Destacam-se projetos com foco multi-populacional, ou seja, favorecendo as pessoas, mas também os animais, as plantas e os microrganismos, muitas vezes entendendo a concepção de cidade como parte integrante da natureza para que seja sustentável. A seleção ilustrada abaixo mostra um pouco da diversidade apresentada:



Ao fundo CODING PLANTS: AN ARTIFICIAL REEF AND LIVING KELP ARCHIVE – o uso do dna vegetal para armazenar informações: a biblioteca do futuro.

 

INTERWOVEN (Diana Scherer) – raízes transformadas em tecido através da engenharia.


BUILDING AS COLLECTIVE PROTOTYPING (Vicente Guallart e Daniel Ibañez) – nova sede do IAAC reutilizando um edifício industrial.


ELEPHANT CHAPEL (Boonserm Premthada) – tijolos de esterco de elefante.


CIRCULARITY HANDBOOOK – guia prático colaborativo para adoção de práticas circulares e busca do resíduo zero em mostras.


FROM PLANTATION TO PAVILION: WEAVING ECOLOGIES IN THE PLANTATIONOCENE (Zhicheng Xu, Kevin Mastro) – possibilidades de uso para os resíduos de banana, a fruta mais consumida no mundo.


CONQ: MARINE BIOBASED BUILDING MATERIAL (Angie Dub e Heidi Jalkhan Fratello – biocerâmica realizada inteiramente com biomassa marinha e sem o uso do calor.


LIMINIS (Polyform) – barro como matéria-prima da impressão 3d: resgate de técnicas artesanais para o mundo tecnológico.


O Brasil marca presença com o projeto YAWANAWÁ SACRED VILLAGE, de André Lago, Marcelo Rosenbaum, Fernando Serapião e Guilherme Winsnik, e também com o FOREST GENS: HUMAN-NATURE INTERRELATION IN AMAZONIA, que propõe o desenvolvimento de concreto através da fibra de cânhamo, de POLES e AO.

 

Artificial, o setor mais científico da mostra é uma ode à tecnologia e contém 69 projetos. Você vai encontrar robôs, futuro alternativo, métodos de uso da IA na arquitetura para projetação e construção, pesquisas de coleta e uso de dados com as novas tecnologias, impressão 3d, neurociência, relação entre tecnologia e natureza, modelagem algorítmica, arquitetura de data centers e painéis com momentos históricos e icônicos da tecnologia.

 

Um destaque curioso é o projeto de autoria do Zaha Hadid Associates que propõe uma plataforma de desenvolvimento urbano participativo dentro do Fortnite, através do uso do Minecraft, para envolver os usuários dos espaços públicos na projetação dos mesmos.


LIVING ARCHITECTURE: BIOPHILIA (Refik Anadol Studio)


Coletiva, com 65 projetos é um bloco mais analítico. Uma série de laboratórios multidisciplinares discutem problemas urgentes como a moradia para população de baixo custo, o impacto da indústria da construção civil e a perpetuação de técnicas tradicionais. São projetos e iniciativas que surgem de comunidades e origens não institucionalizadas colocados à luz através de pesquisas. Em muitas delas a história e a tradição são os atores ativos dentro da coletividade na busca de respostas de um futuro com as novas tecnologias. É forte a presença de debates sobre a necessidade de incentivo à reestruturação no lugar da demolição. Outros temas recorrentes são as pesquisas de oportunidades, soluções para moradias de emergência e para as comunidades vulneráveis. Ao analisar os projetos não resta dúvida que a construção é um processo coletivo.

 

A mostra ainda se estende com 18 projetos da seção Out, sobre o impacto e exploração das tecnologias espaciais para construção de um futuro que mude o prognóstico das mudanças climáticas, explorando possibilidades na Terra, na Lua e em Marte.

 

A seleção de Carlo Ratti se encerra com outros 27 projetos do setor Living Lab, presentes no Arsenale, mas também na Sede Giardini e em vários outros pontos da cidade. São instalações que questionam a convergência de inteligências naturais, artificiais e coletivas na Laguna de Veneza. Um dos projetos de destaque é o AQUAPRAÇA, uma praça flutuante que fará parte do pavilhão Italiano da COP30 e será doada ao governo brasileiro como um espaço comunitário. Outros você pode conferir ilustrados abaixo:


GATEWAY TO VENICE´S WATERWAYS (Norman Foster Foundation, Porsche e outros) – infraestrutura de transporte urbana de Veneza através de bicicletas aquáticas elétricas.


CANAL CAFÉ (Diller Scofidio + Renfro e outros) – ganhador do leão de ouro desta Bienal, a obra se propõe a criar o melhor café expresso da Itália com o sabor inconfundível de Veneza, utilizando a água do canal.


BURSTING BUBBLES (VOLUME) – convite a 10 arquitetos para criarem souvenires da cidade de Veneza buscando popularizar a visão de arquitetos e designers junto aos outros públicos de turistas da cidade.


A mostra é um mergulho nas inteligências, você vai se deparar com dados incríveis. Por exemplo, você sabia que atualmente já existe 1 kg de concreto por m² de superfície terrestre? Encontrará uma pesquisa profunda sobre as pedras naturais: seus líquens; a pedra como substrato para ecossistema; a importância do mármore no resfriamento de ambientes a partir da temperatura do solo e a pedra como “memória do universo”.


É uma nova visão de inteligência alcançada através da redescoberta do antigo, onde reinterpretar é reinventar. Felizmente nós saímos de lá com mais dúvidas do que respostas! O que ainda temos a aprender com o passado? A mistura de materiais e técnicas tradicionais com as novas tecnologias é viável? Até que ponto reinventar o vernacular é uma forma de trazer a cultura ancestral ou é maquiá-la e apropriar-se dela? Seria uma solução escalar as técnicas de construção ancestrais já que são mais sustentáveis? Como reinventar a construção? Podemos continuar construindo?

 

A 19ª Exposição Internacional de Arquitetura de Veneza estará aberta ao público até 23 de novembro de 2025.  

 
 

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