12/01/2017 — Texto: Rock Zanella

A mídia escalafobética dos veículos de imprensa impressa, virtual, televisiva e até radiofônica noticiou “Morreu Sergio Rodrigues!”, em 2014. Um ano de perdas e despedidas de personalidades importantíssimas para a cultura nacional, dar adeus ao Pai do Design originalmente brasileiro foi um choque.

Vimos a figura do criador e de suas criaturas ilustrar os posts de todos os veículos concomitantemente com o seu famoso bigode, a sua boina elegante e a sua poltrona mais famosa (a Mole, de 1957) nos fitar com um semblante de ‘missão cumprida’.

“O móvel não é só a figura, a peça, o material…
É alguma coisa que tem dentro dela, o espírito da peça!”

Nós temos para com este senhor, arquiteto, designer, desenhista e artista uma dívida eterna e releituras intermináveis de tendências que moldaram o Brasil moderno nos últimos cinquenta anos. Filho de uma família de intelectuais que chacoalharam a literatura (era sobrinho do escritor Nelson Rodrigues), as artes plásticas (era filho do pintor e ilustrador Roberto Rodrigues) e influenciaram determinantemente o seu meio – da parte materna, herdou a veia intelectual e politizada dos Mendes de Almeida (Fernando e Cândido), juristas e jornalistas antenados com o seu tempo e a evolução do mesmo, ele assumiu a difícil missão de reinventar integralmente toda a cultura do design mobiliário do Brasil moderno.

Antes de Sergio Rodrigues não existia qualquer leitura originalmente nacional que possibilitasse tal intento e ele abraçou a sua missão unindo Arquitetura e Interiores como ninguém por aqui havia feito anteriormente. Amigo íntimo e inseparável de outros dois grandes gênios contemporâneos seus – Joaquim Tenreiro e José Zanine, ele inaugura, a pedido de Oscar Niemeyer, o autóctone desenho de mobiliário brasileiro para compor na década de sessenta a então capital do Distrito Federal e fez de Brasília o molde arquetípico para a invenção (prestem atenção na palavra – “Invenção!”) do design industrial nestas plagas. Carioca no estilo de ser e se exercer no mundo, ele se expressou pelo viés modernista de sua geração, conforme as palavras do próprio Niemeyer: “De fato, nesse momento, ele fez coexistir o Brasil-brasileiro com o Brasil-de-Ipanema, cantada mais tarde (1962) por Tom Jobim e Vinicius de Morais na célebre “Garota de Ipanema”.

Isto porque o senhor Rodrigues vislumbrou possibilidades muito além do ‘politicamente aceitável’ para aqueles que até então importavam o estilo europeu de vestir as suas residências e empreendimentos comerciais, utilizando-se de matéria prima nacional que dotavam de personalidade e abrasileiravam o trabalho assinado pelo então novo gênio. Couro, palhinha e madeira nativa exaltavam não só a cultura indígena do seu povo, mas precursionavam aquilo que na próxima metade de um século se transformaria num legado de identidade frente a um brutal processo de globalização instaurado pelo planeta. A partir do seu trabalho, o mundo dito ‘civilizado’ para aqueles anos começou a prestar atencão e a respeitar o design produzido ‘por’ e ‘para’ os brasileiros.

Com a criação da primeira loja de Interiores da capital fluminense, no bairro de Ipanema, a OCA (mistura de loja, atelier e galleria de arte), ele integrou a ambientação de Interior ao movimento de renovação da nossa arquitetura. A sua loja reunia intelectuais e novos clientes interessados em “descontrair a casa e por um novo jeito de sentar”. Sergio quebrou a rigidez das formas e do estilo pé palito e era absolutamente convicto de que o arquiteto que não focasse o planejamento do espaço interno e não o estudasse adequadamente não era verdadeiramente um arquiteto, era aquilo que chamamos de um mero escultor.

A afamada “Poltrona Mole” foi apenas a primeira (e talvez a mais importante) de suas revolucionárias e premiadas criações, depois dela vieram uma infinidade de outras poltronas, cadeiras, buffets, mesas, bancos tão importantemente premiados e infinitamente copiados por nomes emblemáticos de gerações que o sucederam. Sergio Rodrigues (permitam-me dizer) continua a ser copiado ainda hoje e identificamos os traços de suas peças poeticamente plagiados dentre as assinaturas mais destacadas da contemporaneidade do nosso design de móveis. Basta conhecer as suas coleções através do site que leva o seu nome – www.sergiorodrigues.com.br – e fazer um breve levantamento do mercado no Brasil nestas últimas décadas para confirmar o que dizemos.

Sergio Rodrigues, arquiteto, designer, pai e avô foi amplo no sentido colocado pelo poeta Fernando Pessoa, “não do tamanho que era, mas do tamanho que a sua alma tinha”. Acariocou os brasileiros desenhando a cara do nosso design com o seu arquétipo sorridente e apaixonado. Amou sobretudo a sua segunda mulher – Vera Beatriz a quem chamava de musa,  e partiu fanfarrão, deixando os seus restos mortais a serem cremados aos 86 anos como se fosse um tronco das madeiras que ele tanto amou (“a madeira é tão mole quanto qualquer poltrona”), matéria prima com a qual construiu um de nossos maiores patrimônios imateriais. Sergio Rodrigues não morreu, ele apenas se encantou!