13/02/2017 — Texto: Karina Calado e Rui Costa

A parte mais visível de uma obra continua sendo ela: a fachada. É o lugar onde a obra revela o seu conceito.

A fachada reflete as tendências da arquitetura: é produto da sociedade, da economia, da política, da religião, recria períodos, procura métodos construtivos e tecnológicos que proporcionem conforto e bem estar ao usuário.

A contemporaneidade introduziu novos conceitos de pensar e construir a fachada: capacidades como comunicar, interagir e adaptar. Partindo desta premissa, conseguimos olhar a arquitetura contemporânea através da fachada e indagar sobre as várias interpretações de que esta tem sido alvo ao longo dos tempos, incidindo, em particular, na contemporaneidade em que os edifícios tornam-se cada vez mais complexos.

Com as novas capacidades atribuídas às fachadas encontramos algumas obras arquitetônicas onde podemos utilizar conceitos para ‘substituir’ a função do simples ornamento na fachada, como é o caso do edifício Iluma, dos WOHA, em Singapura (2009). Destinado às artes, educação e entretenimento, consegue através de sua fachada-mídia, se converter num elemento tridimensional interativo onde qualquer pessoa pode interagir, enviando através do celular, imagens e textos que serão transmitidos na fachada. Este conceito mídia apoia eventos e atividades sociais, fazendo do Iluma um edifício multifuncional, possível de se tornar um lugar urbano.

Outro edifício paradigmático, onde o aspecto tecnológico está presente, é o Instituto do Mundo Árabe, de Jean Nouvel, em Paris (1987). Trata-se de um Centro Cultural, onde sua fachada adaptável é capaz de reinterpretar figuras geométricas utilizadas na arquitetura árabe, transformando-as em formas contemporâneas através de diagramas móveis, semelhantes às objetivas das máquinas fotográficas, que regulam a luz no interior do edifício. Ou seja, a fachada reage, adapta-se e transforma-se conforme efeitos do Sol e do vento.

É certo que quando o assunto é contemporaneidade o aspecto tecnológico está muito presente, mas por vezes a sua função passa também por criar fachadas com aspecto mais figurativo/icônico, onde a tecnologia comporta-se como uma discreta aliada.

Como exemplo, temos a Biblioteca da Escola Técnica Superior Fachhochschule Eberswalde, dos Herzog & De Meuron, na Alemanha (1999), onde nos painéis de concreto pré-fabricado e nos vãos de vidro existentes, que compõem a fachada, foram serigrafadas imagens. Estas, reunidas ao longo dos anos, pelo artista plástico Thomas Ruff. Sem dúvida, é uma fachada capaz de promover diversas sensações, uma vez que as imagens são desde conteúdo tecnológico, científico, político até o artístico.

Outras vezes a maior protagonista é a funcionalidade. Vejamos o edifício das Torres Siamesas, do Alejandro Aravena, no Chile (2005). Nele, o objetivo principal exigido pelo programa, destinado a receber atividades relacionadas com informática, era projetar uma boa sala de aula com luz mediana de modo a evitar reflexos incômodos nas telas dos computadores.

A solução passou por, em vez de projetar uma única camada projetar duas (interna e externa), onde internamente é constituída por fibrocimento e concreto e externamente o vidro predomina, deixando ainda entre essas duas camadas uma caixa de ar com 90 cm. Assim, cada camada desempenha uma função, reduzindo o efeito estufa e resolvendo perfeitamente no fim questões de proteção, isolamento, acústica e iluminação.

Em suma, as fachadas oferecem, além das capacidades adquiridas na contemporaneidade, campo para as experimentações e estimulam a criação do novo para encantar o olhar. Aliás, a fachada contemporânea é capaz de estimular não somente a criação do novo, mas também da novidade, que transformam possíveis ‘adoçamentos’ em informação.