Há alguns anos, o Brasil busca se transformar em referência mundial em construção sustentável, como mostra esta nossa entrevistada

Várias iniciativas voltadas para a solução de problemas crônicos nas grandes cidades apontam para a consolidação de um novo paradigma na área. Esse mercado tem trazido à tona alguns temas, como eficiência energética, uso racional da água, técnicas construtivas inovadoras e novos materiais que favorecem o conforto e o bem-estar.

Para saber mais sobre o tema construção sustentável, conversamos com a arquiteta urbanista Patricia O’Reilly. Graduada pela Universidade Belas Artes São Paulo, Patricia é titular do Atelier O’Reilly Architecture & Partners, com sede em São Paulo, escritório composto por uma equipe de profissionais especializados em arquitetura, urbanismo, paisagismo, meio ambiente, sustentabilidade e energia.

Habitare: Como surgiu sua relação com a arquitetura sustentável?
Patricia O’Reilly: Em uma sociedade em que o respeito pelo meio ambiente é indiscutível, penso que o arquiteto pode atuar no sentido de oferecer alternativas que garantem uma relação saudável e holística com a natureza e o entorno. Acredito que é possível gerir os recursos naturais por meio de um conceito contemporâneo de arquitetura que adquire sua forma pelo entendimento de estratégias sustentáveis capazes de atender às necessidades e desejos da sociedade ao mesmo tempo em que respeita a harmonia com o meio ambiente.

H: Quando a sustentabilidade passou a fazer parte dos seus projetos?
P: Em minha atuação profissional, sempre considerei os aspectos ambientais, sociais e econômicos ao desenvolver soluções e projetos. Atualmente, empreendedores e empresas estão atentos para a forma sustentável de fazer arquitetura, principalmente em função de uma necessidade global crescente, um pensamento que precisa integrar a edificação ao seu entorno para utilizar melhor os recursos naturais e os potenciais de cada empreendimento.

H: Quais iniciativas com esse perfil você destaca?
P: Atualmente estou desenvolvendo um projeto que se chama CASA 88°, um trabalho pioneiro em arquitetura sustentável holística, com uma equipe multidisciplinar, inovação tecnológica e grau máximo de eficiência em todas as fases de vida da edificação: projeto no papel, escolha de materiais, obra, uso com indicadores de desempenho mensuráveis, manutenção e retorno dos materiais à natureza. Outro projeto que estabelece um dos tripés da sustentabilidade, o social, como ponto fundamental é o Mirante do Gavião Amazon Lodge, que foi construído no coração da floresta amazônica em Novo Airão.

H: O que foi privilegiado na CASA 88º?
P: Concretizada pelas empresas consorciadas Atelier O’Reilly Architecture & Partners, Gaia Construtora, MADO Janelas & Portas e Rewood Madeira Laminada, a CASA 88º integra conhecimento e inovação tecnológica aos aspectos econômicos, ambientais, sociais e culturais. No projeto, localizado no condomínio Fazenda Boa Vista, valorizamos a utilização de materiais ecológicos, certificados e reciclados; reduzimos o impacto ao entorno e ao meio ambiente; melhoramos a eficiência térmica, acústica e energética para atingir excelência em desempenho, conforto e qualidade de vida aos moradores. A obra conta ainda com três câmeras de vídeo, que permitirão assistir ao vivo à construção em todas as suas etapas.

H: Alguns empreendimentos buscam o selo sustentável para parecer bem aos olhos do público. O que você acha dessa tendência e até que ponto ela é verdadeira?
P: Acredito que apenas por existir já impactamos o meio, portanto não há como falar em ser 100% sustentável. Sendo assim, sempre vamos buscar maximizar o impacto positivo e minimizar o impacto negativo, por exemplo, recuperando a mata nativa de um terreno. O custo depende do percentual de sustentabilidade desejado. É possível fazer uma construção sustentável em graus diferentes, de acordo com as necessidades de quem vai ocupar aquele espaço. Com o uso de recursos e tecnologias já disponíveis no mercado é possível inovar e ser sustentável unindo respeito ao meio ambiente e viabilidade econômica.

H: Para o usuário comum, que recursos podem ser incluídos para contribuir com esse aspecto?
P: Cada projeto tem suas características e especificidades. O ideal é criar soluções de acordo com as necessidades de cada empreendimento, seja este residencial, corporativo ou comercial. De qualquer modo, soluções em tecnologia e sistemas construtivos que possam viabilizar uso racional de água, materiais e energia devem sempre ser considerados por qualquer pessoa que busca por resultados sustentáveis em construções.

H: Quais as oportunidades e desafios do segmento?
P: Temos feito um trabalho importante e daqui para frente acredito que a sustentabilidade estará definitivamente presente em projetos de arquitetura e urbanismo exatamente por atender a uma necessidade crescente de empreendimentos que consideram aspectos ambientais, econômicos e sociais em equilíbrio.

A grande oportunidade é que o próprio planeta já reclama visivelmente por soluções menos impactantes e, sendo assim, impulsiona os especialistas e a indústria a buscar soluções imediatas para uma construção sustentável. O maior desafio é alcançar um sobrecusto baixo em função da aplicação de estratégias sustentáveis, e consequentemente melhorar o tempo de amortização dos investimentos necessários para alcançar resultados realmente significantes. Um bom exemplo é a Casa 88°, que alcançou uma economia de 49% de energia, com um sobrecusto de 2% e uma amortização de 4 anos.

Casa 88º
www.casa88graus.com.br

Atelier O’Reilly
www.atelieroreilly.com.br