Texto: M. Cecília Prado

Quando falamos em Israel, na maioria das vezes a primeira coisa que lembramos é da cidade de Jerusalém e todo seu significado na história do mundo antigo e contemporâneo. Além disso, também imaginamos um país perigoso, que a todo momento está em conflito com seus vizinhos, portanto, um lugar mais tenso e bem distante da nossa realidade brasileira, não é?

Pois bem, em minha primeira visita a Israel pude constatar que não é nada disso, principalmente quando conhecemos Tel Aviv. Claro que os conflitos do país são realidades, mas nada que você perceba no dia a dia desta cidade tão especial e que me cativou desde o primeiro instante.

Entendendo a cidade

Começando pelo significado do nome Tel Aviv, que vem da ideia do renascimento da antiga pátria judaica. Aviv em hebraico significa “Primavera”, simboliza renovação e Tel é um sítio arqueológico que revela camadas de uma civilização construída sobre a outra. Colina da Primavera.

Tel Aviv tem um clima mediterrâneo, com verões quentes, agradáveis e invernos úmidos e frescos. É a segunda maior cidade de Israel e, por vezes, se referem a ela como a “capital funcional“ (a capital do país é Jerusalém). Com uma população atual estimada em 405.000 habitantes, situa-se na costa mediterrânea de Israel.

Fundada em 1909 nos arredores da antiga cidade portuária de Jaffa, com o nome de Ahuzat Bayit, com a intenção de ser apenas uma cidade-dormitório, e, posteriormente, renomeada Tel Aviv, cujo crescimento logo ultrapassou Jaffa, que tinha maioria árabe na época. No entanto, por volta de 1921, houve problemas entre as comunidades árabe e judaica em Jaffa, o que culminou com a criação do distrito comercial de Tel Aviv, que proporcionou à cidade seu primeiro momento de rápido crescimento populacional.

Tel Aviv é considerada como uma cidade global, além de ser um importante pólo econômico e a mais rica de Israel. Suas praias, bares, cafés, restaurantes, lojas, ótimo clima e estilo de vida cosmopolita, levaram a cidade a se tornar um popular destino turístico. Ganhou também a merecida reputação de “metrópole do Mediterrâneo que nunca dorme”.

A população de Israel como um todo, e portanto a de Tel Aviv também, cresceu muito com a imigração após a subida de Hitler ao poder na Alemanha em 1933 e, posteriormente, depois da Segunda Guerra Mundial.

Tel Aviv e a Arquitetura:
As primeiras construções

Tel Aviv representou uma espécie de laboratório para os arquitetos judeus que buscavam uma linguagem arquitetônica em sintonia com a ideologia sionista (nacionalismo judaico), mudando seu estilo de construção a cada década.

Primeiro surgiram as casas de pedra, para uma só família, circundadas por árvores frutíferas e por um muro baixo. Era utilizada uma pedra local, o kulcar, de origem calcária, derivada da fossilização das dunas de areia.

Em 1921, em consequência dos motins anti-judaicos entre os árabes, as autoridades britânicas separaram Tel Aviv da árabe Jaffa, levando mais judeus a Tel Aviv. E em 1925, em consequência do crescente anti-semitismo e do fechamento da imigração para os Estados Unidos, um novo contingente de famílias de judeus poloneses, de classe média, se instalou em Tel Aviv, dobrando a população da cidade em dois anos, chegando a 40 mil habitantes.

A partir de então, o subúrbio residencial ajardinado passou a ser um centro comercial moderno e o estilo da construção foi, novamente, mudado. Inicialmente era acoplado um andar suplementar às construções existentes, mas logo começaram a aparecer novos edifícios, de dois ou três andares.

O estilo dessas construções é “oriental-moderno”, que alguns definem como eclético ou fantasioso, porque é resultado da combinação das ideias modernas dos arquitetos de Tel Aviv, que, em sua maioria, fizeram seus estudos na Europa Oriental, com elementos e estilos orientais e locais, refletindo o retorno à Pátria.

Assim, às linhas retas e decorações sóbrias dos estilos Art Noveau e Art Deco, são acoplados a elementos locais orientais, como cúpulas, arcos e pórticos com colunas. Janelas, portas e corrimãos eram trabalhados e foram introduzidos adornos com temas judaicos nas fachadas dos edifícios.

Para atender ao crescente aumento da população, um novo Plano Diretor foi necessário, e esta tarefa coube ao urbanista escocês Sir Patrick Geddes. Como não havia jeito de organizar os bairros antigos, Geddes decidiu trabalhar seguindo o desenvolvimento da cidade para o norte, em direção ao rio Yarkon. Usou o Boulevard Rothschild como modelo e planejou a cidade em torno de uma série de extensas avenidas.

Hoje, Tel Aviv é a cidade com mais arquitetura da escola Bauhaus. Há mais edifícios construídos segundo o estilo Bauhaus que em qualquer outro lugar do mundo, incluindo qualquer cidade alemã. O estilo foi levado na década de 1930 por arquitetos judeus europeus que fugiram da Alemanha de Hitler.

Movimento Bauhaus

A escola foi fundada por Walter Gropius em abril de 1919, cujo principal objetivo era fazer da Bauhaus uma escola que combinava arquitetura, artesanato, e uma academia de artes, o que acabou criando diversos tipos de conflitos.

Desta escola surgiu um estilo, tanto na arquitetura quanto na criação de bens de consumo, que valorizava a funcionalidade, custo reduzido e orientação para a produção em massa, sem limitar-se apenas a esses objetivos.

Assim nasceu o estilo Bauhaus, criando produtos altamente funcionais e com atributos artísticos.

Em 1933, após uma série de perseguições por parte do governo Nazista, a Bauhaus é fechada, por ser considerada uma frente comunista, especialmente porque muitos artistas russos trabalhavam ou estudavam ali. Contudo, a Bauhaus teve impacto fundamental no desenvolvimento das artes e da arquitetura do ocidente europeu, e também dos Estados Unidos e Israel nas décadas seguintes – para onde se encaminharam muitos artistas exilados pelo regime nazista.

A cidade branca

Tel Aviv é considerada um verdadeiro museu para a história da arquitetura. Entre 1931 e 1956 foram erguidas cerca de quatro mil construções, todas ao estilo “Bauhaus”.

A presença constante do vidro, das curvas de concreto e principalmente da cor branca, nas milhares de varandas que enfeitam as construções, garantem à paisagem aérea da cidade um tom luminoso que lhe valeu o título de “Cidade Branca”.

No dia 3 de julho de 2003, a UNESCO escolheu a “Arquitetura da Cidade Branca” de Tel Aviv como um dos 24 novos “patrimônios históricos da humanidade”. No total, a Unesco reconhece 754 sítios como sendo de “excepcional importância mundial”, entre os quais contam-se as pirâmides do Egito, Machu-Pichu e o Grand Canyon.

A escolha da cidade israelense é um dos poucos reconhecimentos da Unesco como patrimônio da humanidade a algo que seja um “fenômeno do século XX”.

De acordo com o Tel Aviv Bauhaus Center, a questão principal é como, em uma época em que este novo estilo ainda era tão desconhecido, como chegou a tal magnitude em Israel?

A resposta principal é que a ideologia socio-cultural por trás do “estilo Bauhaus” encaixou-se perfeitamente ao movimento socialista-sionista na luta em criar um novo mundo.

As casas brancas, em todos os sentidos, formam um material de estilo, funcionalidade e cor: Cresceu de areias, sem passado, para um futuro.