Texto: Francine Trevisan

Toyo Ito, que hoje tem 75 anos, frequentemente assinalado como um arquiteto japonês, na verdade nasceu em Seul, na Coréia do Sul. O garoto que gostaria de ser jogador de beisebol acabou se graduando em arquitetura na Universidade de Tókio em 1965. Desde então, vem trabalhando com obras importantes que o rotularam como um dos artistas mais inovadores e influentes do mundo, devido à sua capacidade em expressar simultaneamente conceitos do mundo físico com o mundo virtual. Ele possui a habilidade de mesclar programas de atividades, através da continuidade dos espaços e da criação de películas transparentes, quase sempre ornadas com efeitos de iluminação e tecnologia.

Seus edifícios são leves e se equilibram sem esforço. Talvez, um pouco de esforço. Ocorre que o nome de Toyo Ito ficou em evidência mediante as catástrofes que atingiram o Japão em 2011, quando um terremoto seguido por um tsunami atingiu o país. Uma das cidades mais devastadas foi Sendai, área costeira onde está localizado o edifício que é considerado sua obra-prima. A Mediateca de Sendai foi fruto do trabalho de seis anos do arquiteto, que teve seu projeto escolhido mediante 235 concorrentes. Durante o terremoto, a construção ficou seriamente danificada na parte interna – forros de gesso caíram, vidros se quebraram, canos se romperam – mas sua estrutura,  aparentemente frágil e leve,  resistiu aos danos, pois foi projetada para suportar os abalos sísmicos que afetam o Japão.

Este edifício foi inaugurado em 2001, abraçando um programa de necessidades muito interessante, pois abriga, além da mediateca, uma galeria de arte, uma biblioteca, um centro de serviço e informação para pessoas com deficiência visual e auditiva, centros de mídia inclusivas, além de lanchonete e instalações de apoio (sanitários, acervo, arquivo, casas de máquinas, dentre outros). Para realizar este projeto, seu esforço primário foi o de desconstruir os pensamentos arquetípicos de um museu ou uma biblioteca, para reconstruir um novo conceito de integração.

O edifício foi montado através de três elementos: “prato”, “tubo” e “pele”. O prato é composto por seis placas quadradas que compõem as lajes. Os “tubos” são os pilares que sustentam o sistema e unem as lajes, com formato orgânico, compostos por uma série de peças de metal que lembram o tronco de uma árvore (vasos lenhosos, nas palavras do autor) vazados no meio. É por estes “furos”, que atravessam todos os andares, que transita a energia do prédio, luz, água, ar, som e também o fluxo de informações. Através destes vãos, os usuários também conseguem avistar os outros andares, além de receber claridade que vem do teto. A “pele” é a cortina de vidro duplo que separa e protege o interior do edifício do seu exterior, com um efeito de leveza surpreendente, transformando as toneladas de material em algo quase virtual e holográfico quando iluminados à noite. A integração dos ambientes foi levada ao extremo, de maneira que o cidadão não sabe bem se está na exposição de quadros, no centro de mídia, na biblioteca, ou em todos ao mesmo tempo, criando uma interatividade proposital.

Outro projeto muito divulgado foi o Pavilhão para a Serpentine Gallery, localizado em Londres e, infelizmente, construído e desmontado em 2002. Ocorre que, todo ano, a Galeria de Arte contrata um arquiteto diferente para conceber este espaço efêmero, que serve para abrigar exposições temporárias durante o verão britânico. Projetado em conjunto com os arquitetos Cecil Balmond e Arup, a textura do local, que pareceu ser completamente complexa e aleatória, na verdade foi a forma resultante de um algoritmo de um cubo, rotacionado e expandido.

As linhas de intersecção formaram triângulos e trapézios diferentes, transparentes ou opacos, proporcionando uma sensação de movimento infinito. No exterior, a superfície foi nivelada, enquanto que o interior recebeu as profundidades das vigas de aço, criando interessantes efeitos de luz no chão. Dentro do pavilhão ainda existia espaço para um café e à noite ele se tornava um ponto de encontro, com palestras, debates, exposição de filmes e até festas. Foi construído cuidadosamente de modo que pudesse ser remontado, mas não se tem notícias se isso realmente ocorreu.

Construindo sua carreira com ideias inovadoras há mais de quarenta anos, Toyo possui muitos outros projetos interessantes espalhados principalmente pela Europa e Japão, como o a Biblioteca para a Universidade Tama Arte de Tóquio, o Edifício Tods, na mesma cidade. Um dos seus trabalhos mais recentes ocorreu em Barcelona, um luxuoso edifício residencial que se situa bem em frente ao famoso “La Pedrera” de Gaudí. Toyo se inspirou nas formas curvas do mestre catalão para homenageá-lo, instalando placas de metal na fachada de seu prédio, sem contudo agredir ou chamar mais a atenção do que o patrimônio vizinho.

Além do Pritzker de 2013, o profissional já recebeu uma sucessão de prêmios, como o Praemium Imperiale 22 em honra do príncipe Takamasu (2010), a Medalha Real de Ouro do Instituto Britânico de Arquitetos (2006), além do Leão de Ouro na Bienal de Veneza (2002). Mesmo com este prestígio, quando questionado sobre o segredo do seu sucesso, respondeu de maneira humilde:

“Minha forma de fazer arquitetura é através de debates e interações, da mesma maneira que desenvolvo meus pensamentos. Nunca se julgue autossuficiente ou fique sem ouvir os demais, sem escutar comentários inesperados. Saber como pensam as outras pessoas é um bom começo para a minha inspiração”.