Texto Sandro Prezotto | Fotos Ricardo Camargo

“Tudo pode ser transformado em algo belo e de grande valor. Basta enxergar com outros olhos“.

Com esse pensamento, e com um olhar diferente, que por volta de 2002, Dimas Pires, um artesão autodidata sorocabano, iniciou sua carreira. Suas primeiras experiências foram utilizando bambu em suas obras, mas em pouco tempo seu espírito visionário encontrou uma oportunidade: dar nova vida aos resíduos sólidos urbanos para criar móveis e objetos de decoração. Onde muitos viam um problema, Dimas enxergou vida e transformou em arte. Confira nossa entrevista com Dimas Pires.

Habitare: Como foi o início de sua carreira no artesanato e no design de peças?

Dimas Pires: Sou autodidata e nunca fiz qualquer tipo de curso ligado o design ou coisa do tipo. Comecei trabalhando com bambu por influência de uma rede que vi em um programa de televisão. Gostei muito da rede e pela visibilidade que o programa daria àquele produto, imaginei que poderia ter uma boa aceitação. Comecei então a desenvolver outros tipos de produtos utilizando o bambu como matéria-prima.

H: Como passou a usar sobras de demolição, sucatas e resíduos florestais em suas obras?

D: No início, era apenas o bambu. Aos poucos, passei a fazer intervenções usando o bambu com outros tipos de materiais. Daí em diante, os resíduos sólidos passaram a ser incorporados ao meu trabalho. Já criei desde um simples banco caipira até um pórtico gigante. A mim, me interessa tudo aquilo que está relacionado ao design e à arquitetura e que traz a sustentabilidade como elemento principal.

H: Que materiais você costuma utilizar?

D: Utilizo tudo o que é descartado pela sociedade. Penso que para tudo há sempre uma nova chance, uma nova oportunidade. Isso serve tanto para um objeto que foi jogado no lixo, quanto para o ser humano que foi excluído da sociedade. Por isso, meu trabalho tem como conceito a “Sobrevida”.

H: De onde vem a matéria-prima para suas obras?

D: Encontro diversos tipos de materiais interessantes em lugares que estão ligados aos resíduos sólidos, como o ecoponto e o ferro-velho. Os resíduos florestais são retirados de terrenos onde serão construídos grandes condomínios ou prédios comerciais. Há também as árvores que caem por ação das chuvas e podas.

H: Como a sustentabilidade entrou em seu trabalho?

D: Desde o início, vi uma oportunidade de trabalhar com a sustentabilidade, não apenas por conta da necessidade, ou seja, da falta de opções de destino para resíduos sólidos urbanos, mas também pela riqueza desses materiais. Por exemplo, encontramos madeiras que hoje estão extintas, além de metais de melhor qualidade, que eram utilizados antigamente.

H: Como você trabalha as peças antigas?

D: Sempre busco explorar o conceito de sobrevida: não simplesmente restaurar, deixar exatamente como se fossem novas, mas dar às peças outra utilidade e um aspecto mais atual, moderno. As peças não voltam a ser o que foram. Elas se tornam algo novo.

H: Como funciona seu processo criativo?

D: Minha inspiração vem do arquiteto do universo: Deus. Muitas vezes, olho para um objeto, principalmente nas raízes dos resíduos florestais, e sinto que elas já estão dizendo o que podem se tornar: um banco ou uma mesa. Apenas faço uma lapidação dos excessos e consigo manter a essência da peça.

H: Quais ferramentas são utilizadas em suas criações?

D: São diversos tipos de ferramentas elétricas, todas manuais: motosserra, furadeira, lixadeira, máquina de solda. Há alguns casos em que preciso adaptar ou até mesmo criar uma nova ferramenta para conseguir um acabamento específico.

H: As peças recebem algum tipo de acabamento?

D: Todas recebem acabamento, porém em alguns casos são mantidos os aspectos naturais da peça, preservando o estilo e os traços que mostram sua história. Para manutenção, cada material exige um tipo de cuidado. Os bancos externos recebem verniz, que precisa ser renovado a cada dois anos. Peças internas podem ser limpas com um pano com querosene, o que evita a ação de pragas.

H: Quando você percebeu que criava obras de arte?

D: Não me considero um artista plástico, mas um carpinteiro. Comecei e ver meu trabalho como arte quanto percebi que minhas as peças provocavam uma reação especial nas pessoas.

H: Como você vê a relação entre suas obras e a arquitetura?

D: Sempre tento fazer com que minha obra possa dialogar com o ambiente projetado pelos arquitetos.
Já aconteceu até de não negociar algumas peças por entender que elas não faziam parte daquele ambiente.

H: Qual foi a encomenda mais peculiar que você recebeu?

D: Acredito que foi um Genuflexório (peça sobre a qual as pessoas se ajoelham para rezar nas igrejas). Já fiz vários trabalhos bem diferentes, mas esse foi um de que me recordo bastante.