Texto e Fotos: Daniel Zangirolami

Publicado originalmente na edição 54 da Revista Habitare

Quando estava na universidade, uma das disciplinas que mais me chamavam atenção era História da Arquitetura. Ficava intrigado com o fato de povos tão antigos, com tecnologia bem mais limitada do que temos atualmente, conseguirem ser tão arrojados em suas construções, especialmente as religiosas e de caráter político. Por muito tempo, meu contato com essas edificações e cidades foi apenas nos livros, imagens, sites. Recentemente, estive em Istambul (Turquia), uma das mais emblemáticas cidades da antiguidade, dividida em dois continentes, aliada à religião e cultura, que trazem aura quase mística para o lugar. Esta megalópole já teve vários nomes: fundada por gregos, então chamada Bizâncio; conquistada por romanos, quando obteve seu esplendor, passou a ser Constantinopla; com sua queda, conquistada pelos turcos, marcou o fim da Idade Média. Hoje tem 16 milhões de habitantes e mesmo nos locais mais visitados parece uma cidade pequena.

Impossível não mencionar as construções históricas, como Hagia Sophia e a Mesquita Azul. A primeira, pela importância que teve nos primórdios do cristianismo e pelo pioneirismo de sua arquitetura, com suas abóbadas que mostravam a maturidade dos antigos construtores romanos, conseguindo criar um novo padrão de construção evoluindo o arco. Tal formato possibilitou espaços cobertos generosos com condições de receber muitas pessoas, sem obstrução visual e espacial de pilares, consolidando o conceito das basílicas e catedrais. Foi o maior templo cristão da antiguidade e posteriormente convertido em mesquita, ganhando elementos característicos da cultura islâmica. Digo mais, Hagia Sophia é tão surpreendente que moldou a arquitetura das mesquitas construídas até hoje. A Mesquita Azul, apelido da Mesquita de Sultão Ahmed, cerca de mil anos mais nova, é igualmente surpreendente. Suas abóbadas e paredes revestidas de cerâmicas com diferentes cores, desenhos e motivos, com predominância do azul, daí o apelido, emociona e intriga, algo tão antigo e elaborado nos faz até questionar onde nos perdemos atualmente. A presença de cerâmica é marcante, seja em edifícios antigos como nos modernos, assim como na Mesquita Azul, nos antigos palácios de sultões e vizires, que hoje abrigam museus e hotéis de luxo, elas estão presentes com suas cores, desenhos e formatos, que retratam traços tradicionais e valores da cultura local.

Istambul é uma cidade muito verticalizada, porém uma verticalização ‘leve’, com edifícios de poucos pavimentos. Como já não tem mais para onde expandir, notei uma tendência recente de grandes arranha-céus em seu skyline, espigões em construção com uma arquitetura mais contemporânea e semelhante ao que vemos em outras cidades do Oriente Médio, mas, ainda assim, seu skyline é dominado pelos minaretes das mesquitas, do período dos sultanatos. Cada novo sultão erguia uma em sua homenagem e são geralmente bem grandes, marcando presença na paisagem, outras tantas menores aparecem entre os edifícios, além de algumas modernas em construção.

A cidade conta com edifícios e casas de madeira, algo muito comum, tanto em construções antigas como em modernas. Notei o uso bastante difundido de esquadrias de PVC em toda parte e em todos os padrões, mais lisas e brancas em edifícios modernos, madeiradas e com ‘rococós’ em edifícios antigos. Achei isso bem interessante, pois como o inverno por lá é bastante rigoroso, esse tipo de material tem propriedades isolantes mais eficientes, tanto no som como na temperatura, e para não descaracterizar edifícios históricos, os padrões são diversos e a textura é tão fiel que demorei a perceber que não eram de madeira.

Aqui, no Brasil, costumamos brincar com a ideia de ‘churrasco na laje’, ‘tomar sol na laje’, até de maneira pejorativa. Em Istambul, é difícil ver um edifício que não utilize a cobertura, seja para um uso exclusivo do prédio ou para um uso mais público. Grande parte deles possui restaurantes em suas coberturas. É um conceito arquitetônico bem interessante e que poderia ser mais explorado nas cidades brasileiras.

É uma cidade muito florida, com muitos parques onde os moradores fazem piqueniques até tarde da noite, utilizando uma espécie de churrasqueira. Detalhe: quando saem, levam o lixo junto. No transporte coletivo, além de metrô, trens e ônibus, o sistema de bondes modernos funciona muito bem como alternativa.

Não tem como falar de Istambul sem falar das pontes. Uma das mais famosas e frequentadas, a Ponte de Gálata, é muito peculiar, pois atravessa o Chifre-de-Ouro, uma ponte baixa, quase em nível com as vias dos dois lados, com estrutura metálica, tabuleiro em concreto e um gradil com desenho elaborado. O que chama atenção é o uso que ela tem abaixo do tabuleiro, são diversos restaurantes e lojas, dando uso a um local normalmente vazio. Sobre o Bósforo, encontramos duas verdadeiras obras-primas da engenharia e arquitetura, além do caráter simbólico de ligar a Europa à Ásia. São pontes do tipo pênsil com uma estrutura de concreto, muito esbelta e delicada, muito altas e possuem um vão significativo entre seus pilares, devido ao tráfego de grandes navios que fazem a rota entre o Mar Negro e o Mar Mediterrâneo. São realmente estruturas  impressionantes e que contrastam com o clima quase bucólico daquela região da cidade, onde os edifícios começam a dar lugar a grandes casas e logo depois as florestas que ainda resistem à expansão urbana.

Como já me disseram por diversas vezes, para arquitetos, viajar é praticamente uma pós-graduação. Ver as cidades, sentir suas qualidades e defeitos, saber da história e como ela se desenvolveu e ainda se desenvolve, a relação das pessoas com o local, como a arquitetura reponde às questões climáticas, de moradia, de topografia, como ela preserva tradições ao mesmo tempo em que se mostra globalizada e também a sinergia entre antigo e novo. Na volta, as referências fervilham com ideias e mais ideias que ‘gritam’ para serem postas em prática.