Texto: Fabiana Santa | Fotos: Natália Garcia

Publicado originalmente na edição 40 da Revista Habitare

Cidades: o Habitat do Homo Sapiens

De acordo com o Banco Mundial, em 2010, a população mundial que vive em cidades ultrapassou os 50% e agora somos a maioria. Em algumas regiões esta porcentagem é bem maior, acima dos 70% na América Latina (79%) e Europa (74%). Ao longo desse crescimento urbano, muitos problemas apareceram e não é mais possível passar ilesos a eles. Facilmente destacamos dois desses problemas: trânsito e violência.

Se considerarmos que desde os primórdios o ser humano busca por ambientes confortáveis, pois a sensação de bem-estar é primordial para viver, podemos dizer que estamos nos afastando dessa simples meta. Nossas cidades são e estão, por mais paradoxal que possa parecer, cada vez mais hostis ao ser humano. Talvez porque tenhamos nos esquecidos de, ao construir essas cidades, pensar na escala humana. E isso já não sou eu que digo, mas um arquiteto urbanista dinamarquês chamado Jan Ghel.

Mural da artista americana Mona Caron, com uma linha do tempo da cidade de São Francisco, ilustrando o transporte pela histórica avenida Market Street, em diferentes eras, dos anos 20’s até o futuro. Mais trabalhos no site da artista:  www.monacaron.com

Um urbanista

Há mais de 40 anos, Jan Gehl ajuda a transformar o meio ambiente urbano baseando-se em suas pesquisas sobre como as pessoas usam os espaços onde vivem ou trabalham – ou como poderiam usá-los. Suas idéias são revolucionárias, pois coloca o planejamento urbano orientado pela escala humana. Segundo seu livro – Cities of people – esse olhar tem sido muito negligenciado e isso tem criado as cidades em que estamos vivendo. Cidades preocupadas com demandas de estacionamentos, duplicações de vias para evitar os congestionamentos, crescimento da violência, enchentes, entre outras tantos problemas. Mas basta olhar pra uma dessas demandas para perceber a progressão aritmética que isso provoca, por exemplo, mais vias e vagas para carros geram espaços para mais carros que demandam mais vias e vagas para carros (visto que, melhorias e diversidade nos meios de transportes coletivos e alternativos não acompanham o crescimento das cidades e as demandas das pessoas).

Gehl enfatiza que considerar essa escala humana é essencial para o sucesso do planejamento e assim criar ou recriar cidades mais confortáveis de se viver, seguras, sustentáveis e saudáveis. Em seus livros encontramos muitos exemplos, métodos e ferramentas que transformam espaços urbanos não funcionais em cidades para pessoas.

Essa questão tem sido a bússola na vida e no trabalho do urbanista, que se formou arquiteto na década de 60 em Copenhague.  Mas vale a pena citar que sua esposa é psicóloga e muito contribuiu para o perfil das suas pesquisas e trabalhos. Numa entrevista à jornalista Natália Garcia (você saberá mais sobre ela nesta matéria), Gehl confessou que sua esposa o provocava questionando por que eles (os arquitetos e urbanistas) nunca pensavam nos aspectos humanos na hora de criar projetos para a cidade. Na mesma matéria ele afirma que sua esposa o impediu de se tornar mais um “obcecado pela forma, sem pensar na funcionalidade”.

Cidade para pessoas: o projeto jornalístico

A jornalista Natália Garcia viveu uma experiência que mudou sua vida. Ela comprou uma bicicleta dobrável para se livrar do trânsito e diminuir as horas em que ficava presa nos congestionamentos. A partir desse acontecimento, uma série de eventos foi se desenrolando até chegar aqui: o projeto Cidade para pessoas.

O objetivo do projeto jornalístico Cidades para Pessoas é visitar algumas das cidades que foram planejadas ou tiveram consultoria do arquiteto Jan Gehl – ou que sejam consideradas por ele um importante exemplo de “cidades para pessoas” – para entender de perto como cada uma delas foi modificada em seu contexto, como foi esse processo de modificação, quais ideias funcionaram e quais não.

O projeto já completou com muito sucesso a primeira fase: visitar 12 cidades e passar um mês em cada uma delas para pesquisar, registrar e divulgar soluções que as tornaram menos hostis e que, de alguma maneira, se encaixam no perfil de cidade para pessoas criado por Jan Ghel.

Outra característica revolucionária e que garantiu liberdade total ao projeto está na forma como ele foi financiado: crowdfunding ou financiamento coletivo. Isso significa que se obteve capital através de múltiplas fontes, em geral pessoas físicas interessadas na iniciativa. Um aspecto comum a iniciativas de crowdfunding é a concessão de recompensas aos financiadores, em escala proporcional à grandeza do incentivo concedido. As recompensas estão de certa forma associadas ao objetivo final, mas isso não é necessariamente uma obrigação.

Se você se interessou, todas as reportagens feitas pelo projeto são publicadas no site www.cidadesparapessoas.com e licenciadas em Creative Commons para que sejam livremente replicadas.

12 Ideias para um bom espaço público


Principais ideias apresentadas pela jornalista Natalia Garcia idealizadora do projeto Cidade para Pessoas em uma palestra realizada no TEDx Jovem.
  • É possível nadar em rios que já foram muito poluídos (Copenhagen);
  • As decisões da cidade precisam ter participação popular;
  • A cidade precisa ser sinalizada para todos;
  • Políticos precisam de um conselho técnico de apoio (Londres);
  • Agricultura urbana pode resolver problemas estruturais;
  • Espaços públicos para aproveitar o clima;
  • Investir nas redes de catadores locais de lixo;
  • Consumo colaborativo pode melhorar as relações na cidade;
  • Engajamento cívico é tão importante quanto poder público;
  • Uso dos carros precisa ser restringido em bairros centrais;
  • Bicicleta é um transporte benéfico para a cidade;
  • A cidade precisa de mais opções de locomoção.