Texto: Rock Zanella

O que consagra um simples mortal em um Papa da Arquitetura Moderna? A história de Aurelio Martinez Flores retrata de forma singular tal trajetória e tem inicio na pacata cidade de Puebla (México), na qual ainda criança inicia de forma autodidata os seus primeiros experimentos – ele “nasceu arquiteto” e com o “dom” nato em sua pessoa brincava de “construir coisas” e montava de maneira natural “aviões de madeira balsa” – brinquedos que vinham com projetos desenhados e explicações para montagem. Desta forma, aprendeu a ler plantas sozinho, seguindo indicações de desenhos e cortes.

 “O que é preciso para ser um bom arquiteto? É preciso nascer arquiteto!”

Criado num antigo convento em sua pequena cidade, numa construção com mais de 27 quartos e na companhia de oito irmãos, ele conviveu com capelas no interior de sua casa e ambientes rústicos e nada modernos. Foi marcado intensamente por traços de uma clara nostalgia e decadência que norteariam de maneira marcante a sua obra. Aos 16 anos, atendendo ao pedido do primeiro patrão dono de uma loja de roupas, começa a arrumar vitrines e depois desenha a sua primeira fachada com traços marcantes para aquela época – reta, sem janelas e somente com uma vitrine. Flores não havia estudado nada até então e, antes de fazer arquitetura, o pai lhe obrigou a estudar medicina. Sem dom algum para sangue e feridas, desistiu do curso para aventurar-se naquela nova profissão que ainda se mostrava bastante incerta para a sua época – a Arquitetura.

A vivência acadêmica lapidou um gênio e Flores afinou os traços de sua personalidade com mestres, como o mexicano Jorge Gonzales Reyna, o americano Richard Neutra e todos os discípulos do mitológico senhor “Mies Van der Rohe”, que revolucionava, àquela altura, a arquitetura e o design de móveis em todo o mundo. Daí vieram os primeiros projetos profissionais – uma padaria, uma relojoaria, casas, várias e várias lojas. Flores afinava o seu talento à medida que avançava com suas linhas minimalista, retas e de uma simplicidade avassaladora concomitante às suas raízes com os densos muros de alvenaria de seu país, os pátios espanhóis e as claraboias. Sua personalidade, avessa ao exibicionismo e à exposição pública, cresceu junto de uma elegância e discrição que se reflete tanto em sua postura pessoal como na profissional.

Contratado pela “Knoll International”, primeiro na cidade do México e depois na Pensilvânia, nos EUA, embarca para o Brasil em 1960 com o intuito de ficar apenas três meses a representar a marca de móveis junto à tradicionalíssima fábrica de móveis FORMA. Após três meses, ele renova o contrato e fica radicado em nosso país. Junto da Knoll, Flores trouxe ao Brasil o mais moderno conceito da mobiliário que revolucionava a produção em massa com ideias e materiais novos, como a fibra de vidro, o alumínio, o poliuretano e outros, e inaugura a era do Design Clássico Moderno em “solo brasilis”. Junto dele, vieram também os grandes nomes do design mundial, como Saarinen, Bertoia, Mies, Eames, Florence Knoll e todos os outros gênios de sua própria geração. Flores se tornou um precursor em nosso país produzindo o primeiro exemplar da cadeira Saarinen por aqui, foi o responsável pela expansão do Design e da formação e desenvolvimento de uma nova forma de arquitetura com as suas famosas “caixas cegas”, sem aberturas e completamente retas – isto porque, segundo o próprio, ele “não sabe desenhar janelas e nem portas”. Simplista, como somente o senhor Flores poderia ser – “Gosto de retas, as curvas são de Niemeyer e de Ruy Ohtake!”.

No país, ele comandou a fábrica de Design Clássico FORMA por mais de uma década, lecionou na faculdade Mackenzie, ajudando a brotar uma nova geração de expoentes da qual ele foi o Mestre e inclui discípulos significativos, como Isay Weinfeld e Marcio Kogan, liderou a corrente arquitetônica batizada por Mario Biselli de “Branco paulista”, inaugurou a primeira loja de design e decoração do país – a Interdesign (situada na Alameda Lorena – no bairro dos Jardins, em São Paulo) e projetou obras memoráveis reconhecidas internacionalmente: a casa de José Zaragoza no litoral paulistano, a sede do Instituto Moreira Salles (MG), a Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (SP), dentre muitos outros.

Atualmente com oitenta anos ininterruptos de atividade, Flores mantem-se avesso à aparição pública, retirado de forma simples na sua casa, na Granja Viana, em São Paulo, e continua a ditar regras e tendências para o mercado arquitetônico – é dele também as obras do restaurante Gero, nas capitais paulista e fluminense, concluiu a loja Scandinavian Designs (SP),  projetou um protótipo de Casas Populares e planeja publicar um livro de Contos em seu tímido namoro com a literatura – recluso, discreto, avesso às aparições públicas e banhado de um dom que Deus confere a poucos papados desde a mais tenra infância – “nascer Arquiteto”!