11/04/2017 — Texto: Fabiana Santa | Fotos: Ares Arquitetura

Nossas casas, apartamentos, escritórios, ateliês, clubes etc são espaços construídos que têm como função o atendimento às nossas necessidades humanas, que ultrapassam o caráter de abrigo e constituem-se como uma extensão do cotidiano.

Passamos a maior parte da nossa vida (generalizando) em locais edificados, dessa forma, é imprescindível garantir condições mínimas de conforto ambiental aos usuários, seja térmico, acústico ou lumínico.

Qualidade de vida, eis o que queremos encontrar em nossos lares, locais de trabalho e de encontros sociais e buscando esse conforto ambiental é que foram (e são) criadas novas tecnologias. Infelizmente, muitas dessas tecnologias solucionam os desafios do conforto com produtos de alto impacto ambiental, elevado custo energético e financeiro, ou até mesmo, com produtos e técnicas insalubres.

Mas hoje, diante de um novo cenário sócio-ambiental, é urgente que soluções diferentes sejam encontradas. Este novo contexto fez com que muitos profissionais, de diferentes segmentos, encontrassem as soluções em técnicas ancestrais, ou ainda, em tecnologias simples e criativas. A arquitetura bioclimática é uma delas.

“A arquitetura bioclimática é o estudo que busca a harmonização das construções ao clima e características locais. Manipula o desenho e elementos arquitetônicos a fim de otimizar as relações entre homem e natureza, tanto no que diz respeito à redução de impactos ambientais quanto à melhoria das condições de vida humana, conforto e racionalização do consumo energético.” – Adonis Arantes de Souza

Utilizar os conhecimentos e técnicas da arquitetura bioclimática é poder realizar um projeto tão bem feito que o edifício não perde nem ganha calor desnecessário, em outras palavras, é confortável no verão e no inverno, além disso, possui iluminação natural. Sem precisar de sistemas artificiais, como por exemplo, ar-condicionado e luz artificial (diurna) para conseguir temperatura e iluminação agradáveis e saudáveis, a arquitetura bioclimática também promove a racionalização do consumo energético, respondendo de maneira integral a este novo cenário sócio-ambiental.

A partir dos projetos e gestão, a arquitetura e os profissionais envolvidos em todo o ciclo de vida das edificações são chamados a contribuir na construção de uma sociedade mais sustentável. A sustentabilidade na construção passa por um bom projeto arquitetônico bioclimatico, sem dúvidas. Mas por que as técnicas não são aplicadas de maneira mais democrática se trazem tantos benefícios?

Algumas razões podem ajudar a entender e, quem sabe, modificar esse cenário. Uma delas é a padronização de sistemas, produtos, desenhos e soluções; ou ainda, os conceitos de ‘moda’ no segmento da construção colocando critérios estéticos como prioridade, principalmente quando se trata de projetos residenciais; e também a exigência de um conhecimento sistêmico e multidisciplinar, por parte dos profissionais, para solucionar cada caso de maneira personalizada.

“Um edifício de escritórios em Belo Horizonte, por exemplo, deve ter características diferentes de um edifício em Florianópolis, mesmo estando localizados em uma mesma zona bioclimática. Ou seja, apesar das características típicas semelhantes, o arquiteto deve aprofundar-se no levantamento histórico de dados e características locais para projetar uma edificação confortável termicamente”, explica a arquiteta Ana Carolina Veloso.

A arquitetura bioclimática, embora para muitos pareça um conceito novo, possui elementos e técnicas que são utilizadas desde a antiguidade, como o desenho das cidades romanas que desfrutam da orientação solar. Mas, não obstante o tempo, ainda há muito por descobrir e muito mais por inovar.

Segundo a arquiteta, é a verificação do histórico climático que fornecerá ao projetista subsídios que influenciarão as demandas e soluções dos projetos. Através de estudos climáticos como as médias mensais de temperatura (verão e inverno), pluviosidade, potencial eólico, entre outros conceitos, é que se evidenciam os elementos determinantes do conforto e o desconforto nos ambientes.

A natureza sempre nos serviu de lição (embora não tenhamos aprendido ainda), nela “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” (Antonie Lavoisier). A arquitetura bioclimática é inspirada na natureza e com ela pretende trabalhar em conjunto, favorecendo o bem-estar do ser humano. Se ainda não aprendemos isso, a hora é agora. Vale a pena lembrar que o maior desafio para a democratização e avanço desta área (arquitetura sustentável) é cultural e organizacional, associado à consciência ambiental da sociedade. Muitas tecnologias sustentáveis já atingiram maturidade e são economicamente viáveis, esteticamente belas e qualidade comprovada.


Conceitos Básicos:

  1. Energia Solar • a trajetória do Sol e a duração da exposição solar;
  2. Temperatura • a temperatura depende essencialmente da radiação solar, do vento, da altitude e da natureza do solo (radiação, convecção, condução);
  3. Umidade • percentagem de água que o ar contém, influenciada pela temperatura, volume de precipitações, vegetação, tipo de solo etc;
  4. Vento • principal responsável pela perda parcial ou total de calor (vantagem para locais e estações quentes);
  5. Água • influenciam o microclima e a vaporização, processo endotérmico, diminui a temperatura;
  6. Vegetação • protege o edifício, consegue refrescá-lo e filtrar o pó em suspensão no ar.