Texto: Sandro Prezotto | Fotos: João Morgado

Em plena Costa Alentejana, o Monte Novo da Cruz, em Portugal, uma faixa de terreno suavemente ondulado é fortemente caracterizado pela presença de uma cortina de árvores altas, pinheiros e eucaliptos, que limitam e percorrem todo o terreno a sudeste e uma densa vegetação junto a uma pequena ribeira a sudoeste.

No ponto mais alto do terreno, no centro da propriedade, destacava-se uma antiga construção rural, uma casa típica da região constituída por habitação e anexo, em avançado estado de degradação. A casa, juntamente com um poço em pedra, um conjunto de sobreiros e algumas árvores frutíferas, definem a partida da área de intervenção.

Preservar o protagonismo da casa original, manter a simplicidade formal e material, reforçar as características naturais do lugar e responder às exigências do novo programa, um Turismo Rural, foram os principais desafios do projeto dos arquitetos Inês Antunes ou Ivan de Sousa, da [i]da arquitectos.

A proposta procura estabelecer um diálogo de contraste entre o existente e o novo que por vezes se fundem entre si, criando uma transição harmoniosa entre o passado e o presente. Esta relação materializa-se através de dois tipos de intervenção, inseridas em níveis distintos no terreno.

No nível superior, a intervenção consiste na recuperação e ampliação da construção pré-existente para habitação dos proprietários. Respeitando a implantação e características construtivas e tipológicas da arquitetura original, a casa foi adaptada aos novos usos e necessidades do nosso tempo, que incluiu uma ampla sala de pé-direito duplo com lareira.

A sudeste estão os espaços principais: salas, quartos, cozinha, escritório e biblioteca, voltados para o jardim e a piscina. Deste lado, as paredes exteriores mantêm-se espessas e, como se escavadas, integrou-se grande parte do mobiliário fixo, como lareiras, roupeiros, armários, estantes, mesas e bancos.

No nível inferior, a intervenção traduz-se numa nova construção independente que se adequa à topografia do lugar e aproveita o desnível do terreno para diferenciar a habitação dos proprietários dos espaços dedicados ao turismo.

Este volume, semienterrado e perpendicular à linha de árvores, preserva a escala da casa principal e reforça a verticalidade da vegetação. A sua única fachada é caracterizada por um enorme vão que emoldura a paisagem e por uma pérgula autônoma que protege os quartos do sol intenso do Alentejo, assim como proporciona privacidade aos hóspedes.

À entrada do terreno, a construção é quase imperceptível ao olhar, resumindo-se a um extenso terraço com espaço de estar para contemplação da natureza. Sob este terraço situam-se seis suítes, uma sala para eventos e uma sala ao ar livre coberta com um bar de apoio. O acesso às suítes se dá através de um longo corredor caracterizado por uma parede em concreto aparente e claraboias que iluminam todo o percurso.

A ligação entre os dois volumes é feita pelo pátio central, o coração do projeto. Neste espaço destacam-se a escadaria-auditório ao ar livre que conduz ao nível superior e os três vãos verticais que revelam amplitude da sala comum.

O projeto prevê ainda a casa do caseiro, uma construção de apoio ao empreendimento de reduzidas dimensões. Esta casa assinala a entrada através de dois muros cegos e brancos que nos direcionam até ao pátio central. O contato com o exterior é realizado apenas por dois pátios de entrada sombreados que garantem uma boa visibilidade para a entrada principal, horta e estacionamento.