07/03/2017 — Texto: Francine Trevisan | Fotos: Divulgação

Santiago Calatrava Valls, nascido em Valência, se considera artista e escultor. Na verdade, é formado em Arquitetura e depois em Engenharia, com doutorado no ETH de Zurique.

Nascido em 1951, hoje possui dois escritórios na Europa e um em Nova Iorque, que produzem obras com um tom de fantásticas, nunca passando despercebidas. Amado ou odiado, as críticas elaboradas sobre sua obra não ficam em meio termo.

Tornou-se conhecido mundialmente, por introduzir no campo da arquitetura e da engenharia, o projeto de pontes elaboradas que ultrapassam a função simples de conectar um local ao outro. Estas estruturas, que geralmente lembram harpas brancas, presenteiam o espaço com elegantes traços artísticos contemporâneos que parecem desafiar a gravidade. Aqui no Brasil, qualquer viaduto ou ponte é chamado tecnicamente de “obra de arte”, pode-se dizer que essa qualidade é elevada ao extremo nos projetos deste espanhol. Para efeitos surpreendentes, ele se utiliza de elementos quase sempre bancos, tirando partido da beleza das estruturas e dos suportes, com novos modos de estaiamento em formato de arcos e tirantes, saindo da mesmice que é o sistema comum com pilar e viga.

Sua carreira decolou em meados de 1987, quando projetou em Barcelona a ponte Bac de Roda. Foi considerada como ponto de partida para os grandes projetos olímpicos na cidade, e é composta por quatro arcos inclinados que sustentam uma cortina de tirantes, com quatro faixas de tráfego de veículos e duas pistas para pedestres e bicicletas. Esta espécie de “harpa” branca gigante influenciou a estética de muitas pontes construídas pelo mundo a partir daí, com sua autoria ou não.

Outros projetos famosos do arquiteto são: a impressionante ponte atirantada de Alamillo em Sevilha (1992) que vence um vão de 200 metros, e foi construída com a maior grua existente no mundo; a passarela Zubizuri em Bilbao (1997), que não agradou a população, pois seu piso de vidro é escorregadio no clima úmido da cidade; a passarela de Puerto Madero na Argentina (2000), que é rotatória e permite a passagem de navios; a passarela Turtle Bay na Califórnia (2009), onde o mastro aponta para o norte e funciona como um gigantesco relógio de sol, mas demorou dez anos para ser construída.

A ponte sobre o Grande Canal de Veneza, inaugurada em 2008, também é um foco de polêmicas. Desde que o projeto foi aprovado, passou por inúmeras mudanças em sua estrutura, devido à instabilidade mecânica e ao excessivo peso próprio. Em dez anos de construção, foi inspecionada por 8 construtoras diferentes e seu custo triplicou em relação ao orçamento original. Atualmente, o governo italiano está processando o arquiteto pelos erros no projeto e orçamento, que já levaram a um dispêndio enorme de dinheiro público, e ainda não cessaram devido aos altos custos de manutenção da estrutura que possui patologias construtivas.

Os projetos de espaços edificados são igualmente impressionantes, Calatrava foi responsável pela construção dos aeroportos de Bilbao e de Lion, e pela Gare do Oriente em Lisboa. Para sua cidade natal, o arquiteto caprichou no projeto da Cidade das Artes e das Ciências, um complexo de lazer e aprendizado que parece ter saído de um filme de ficção científica. O primeiro prédio entregue à população foi o Planetário (2000), que se assemelha a um olho gigante que se transforma em globo através de seu reflexo na água.

Depois veio o Museu de Ciências (2000), que lembra um esqueleto pré-histórico, criado a partir da repetição das estruturas transversais. O último edifício entregue à população foi o Palácio das Artes (2005), que abriga um teatro com 1300 lugares, uma escola de música e administração, desenhado como uma série de volumes randômicos, que parecem unificados através de duas conchas simétricas. Todas as construções possuem estrutura mista em concreto branco e metal, e em diversos locais existe revestimento com caquinhos de cerâmica, como referência a Gaudi e a indústria do material, tradicionalíssima na cidade.

Hoje o arquiteto investe seus esforços na América, conseguindo diversos projetos nos EUA. No Brasil, projetou o Museu do Amanhã, que está em construção no Porto Maravilha, nome dado ao projeto de reurbanização da região portuária do Rio de Janeiro. O espaço, que promete abrigar exposições com experiências sobre o uso dos recursos naturais e o futuro nacional, também vai possuir itens sustentáveis, como aproveitamento das águas e da energia do sol.

A carreira de Calatrava é recheada de projetos delicados e ao mesmo tempo poderosos, sempre com acabamento alvo. A inspiração do arquiteto para compor espaços tão diferentes vêm da observação de estruturas existentes na natureza, como asas de insetos, pássaros, formações da botânica – que o artista amplia, rotacional e geometriza. Se por um lado cria obras belas, as críticas atacam o frequente estouro de orçamento e atrasos nos cronogramas, além de falhas na escolha dos materiais em favor da estética, ou problemas como falta de visão do palco, saídas de emergência inadequadas e acessibilidade ruim. A permanente tensão entre dinâmica e equilíbrio parece estar resolvida na estética de suas obras, mas não totalmente equacionada no seu percurso profissional.