Texto Rock Zanella

“Várzea Queimada é um típico povoado do sertão brasileiro, com oito meses de seca por ano, agricultura de subsistência e calor, muito calor.
É um lugar esquecido. As casas não têm banheiro, as torneiras não têm água e os chuveiros estão sempre secos. Não tem telefone, não tem internet. Mas tem conversa, diversão e união. A distância que separa Várzea Queimada de uma cidade moderna não pode ser medida em quilômetros. Não é somente uma separação geográfica, mas também de tempo. Várzea Queimada passou por uma grande transformação. Durante o AGT, numa igreja sem padres, os artesãos construíram milagres com as próprias mãos”.

Foto: Cauê Diniz

O texto acima consta do site do escritório Marcelo Rosenbaum de arquitetura e design como um resumo da identidade autóctone e ao mesmo tempo globalizada de um profissional fincado nas tradições brasileiras. AGT é o nome do projeto A Gente Transforma, que reúne artesãos populares do sertão brasileiro num trabalho originalíssimo junto à palha e à borracha. Rosenbaum® (com o símbolo da marca agregado) é, segundo definição do próprio website, um escritório de design e inovação, capaz de gerar valor a partir de ideias originais. Sócio da arquiteta Adriana Benguela, este inquieto designer e arquiteto por atuação que ficou bastante conhecido devido à exposição midiática com participações em programas televisivos, executa há 20 anos ideias originalíssimas tendo o foco na brasilidade, na conexão com identidades culturais, na cultura popular, na memória e na inclusão.

Rosenbaum já desenhou para a elite, ajudou a construir lojas multimarcas e foi o preferido da moda dos anos de 1990, você pode conhecer a mística do seu trabalho através de iniciativas como “Lar doce Lar”, do programa “Decora” e agora da nova linha de objetos desenhada para o magazine popular das Casas Pernambucanas – conceitos trabalhados para a grande massa que ajudaram a popularizar a sua imagem na última década.

Rosenbaum® para Pernambucanas

Ainda assim, poucos conhecem de fato este incrível escritório que possui intenso relacionamento com elementos do folclore nacional e os seus arquétipos nobremente resgatados de regiões quase esquecidas dentro do país: a linha de móveis Caruaru, inspirada no patrimônio cultural da Feira de Caruaru, traduz uma identidade fortemente arraigada nos costumes do povo brasileiro e ajudou a reafirmar a importância de elementos trabalhados há várias gerações, trazendo ainda a mão do xilagravurista J. Borges a ilustrar os seus móveis. O projeto, intitulado AGT, valoriza o manual de artesãos populares de uma região extremamente sofrida do país e registra um típico Rosenbaum – inquieto, iconoclasta, versátil e vanguardista: mais uma vez ele reúne arquitetura, design e moda numa iniciativa que condensa o social e a arte num fazer único, com a prestigiada top model Carol Trentini a estampar a “grife” (ela doou o seu cachê para o projeto) e a São Paulo Fashion Week, que teve o AGT como pano de fundo para a sua última temática. A coleção é monumental e reúne anéis, colares, rosários, tapetes, chaveiros (feitos de borracha), bogoiós, tabuleiros, colchões e máscaras (feitas da palha da carnaúba).

Seguem a estes, outros projetos igualmente importantes em aspectos socioculturais que traduzem a arquitetura não apenas em forma, texturas ou cores, mas em conceito sociológico de intervenção e transmutação de um meio geopolítico – coleção Jalapa (realizada em parceria com o Sebrae-TO, valorizando a cultura do Capim Dourado), coleção Içá (Grupo de Mães Casa do Zezinho – bolsas artesanais de Santo Antônio), coleção Du Berardo (artesanato de fuxico Recife-PE). Prova de que a criatividade lúdica de Rosenbaum e sua equipe atravessa fronteiras e se firma com extrema importância na contribuição do design de produtos e móveis contemporâneos no Brasil, representando a geração do “Boom” no Design nacional dos anos oitenta e noventa, muito ativa nos dias de hoje, junto de nomes concomitantes ao seu, como os Irmãos Campana, Design Ovo e Zanini de Zanine.

Do profissional aclamado e de uma geração que impulsionou o Design à categoria de Arte fazendo-o disseminado por todo o país, Marcelo Rosenbaum (de origem germânica), atravessou o atlântico para fazer escola com o arquiteto alemão Andreas Weber, resgatou o folclore popular de seu país, construiu casas e projetos comerciais, edificou cenários e transformou a vida de pessoas simples do sertão nordestino ao semiárido brasiliense. Pouco ainda para um gênio inquieto que comanda um dos maiores escritórios de arquitetura e design do país como quem guarda uma Caixa de Pandora a cada intento anunciado em sua trajetória icônica de “folcorista popular”.