Texto: Rock Zanella

Olga Krell

Roberto Dimbério­ - (consultor de Design)

As referências são inúmeras, assim como as homenagens póstumas e as citações bíblicas que rondam a Grande Dama da decoração brasileira, dentre nomes vultuosos que não cansam de lhe render as devidas reverências.

Esta senhora de semblante aristocrático e gostos cosmopolitas personifica desde sempre a síntese da Grande Dama dentro e fora do Brasil: a Rainha! (peça maior do Xadrez) com o maior valor relativo do jogo capaz de vencer uma partida contra um Rei solitário. Por sua alta mobilidade, a Dama é a peça preferida de todo enxadrista iniciante. Senhora nobre ou distinta. A mulher que dança em um baile. Senhora que assiste rainhas e infantas. Mulher galanteada. Atriz. Carta do baralho. A que atinge o limite do tabuleiro. Mulher que pertence à corte e vive no palácio real. Todos os substantivos e adjetivos afins tornam-se pequenos quando tentamos mesurar a persona de Olga Krell.

Nascida na Cracóvia, filha de um casal polonês, aos cinco anos de idade fugiu com a família para não sucumbir à 2˚ Guerra Mundial, em 1939. “Saímos com a roupa do corpo em 2 de setembro, dia do meu aniversário. Lembro-me do cheiro das bombas!”. O pai, arquiteto, pagou por carona em um ônibus com soldados poloneses em retirada de sua cidade, que viria a ser ocupada pelos alemães. Antes, enviou parte do que tinha para um banco suíço e comprou brilhantes.“Parece novela. Ele forrou os casacos com as pedras porque sabia que seriam nossas moedas na jornada.” A fuga teve passagens por Turquia, Índia, Irã, Iraque e África do Sul, com hospedagens em casas de boas almas. “Na África do Sul, na Cidade do Cabo, freiras nos aceitaram em um orfanato para esperar o navio até o Brasil. Quarenta anos depois, voltei para agradecer, mesmo que para outras pessoas”.

Década de 1940, Olga cavalgando em Campos do Jordão, nas muitas viagens em companhia de seu pai, responsável pelo projeto e construção do tradicional Hotel Toriba.

A cidade de Recife (PE), com a força de sua cultura, foi o seu primeiro porto. Ao se deparar com o Brasil, os olhos da menina refugiada fotografaram para sempre o instante mágico da cidade pernambucana, fazendo com que, anos mais tarde, Olga elegesse o seu artesanato e a sua cultura popular (assim como a de todo o Nordeste brasileiro) enquanto grande valor artístico e de design, galgando-os à categoria de Arte. “Mas o meu pai estranhou bastante a cidade!”. Dava-se início, naquele momento, à paixão que Olga viria alimentar pelo Brasil e a sua gente. Seguiram para o Rio de Janeiro. Depois para São Paulo. Anos mais tarde, incentivada pelo pai, aos 17 anos consegue adentrar uma das maiores faculdades de arquitetura do mundo, rumando sozinha para a cidade de Ithaca, nos Estados Unidos.

“Em 1953, eu consegui entrar em Cornell, que é uma das escolas mais conceituadas em arquitetura. Telefonei para o meu pai e falei ‘pai você esta gastando uma fortuna e eu não tenho talento’. Ele perguntou se eu estava passando de ano e eu disse que sim. Ele disse ‘então fica’, ‘guarda-chuva’ de arquiteto é muito amplo e você vai encontrar o seu caminho”.

A senhorita Krell era a única mulher em uma turma dominada por homens dentro da escola de arquitetura da Universidade de Cornell, onde teve aulas com nomes como Frank Lloyd Wright e – sim – Charles Eames. “Esse, eu adorava porque, além de tudo, era lindo, o que ajudava a prestar atenção”, rememorava com seu humor típico de ‘boa vivant’, que enxerga o mundo além das fronteiras do possível imaginável. Lá, os professores perguntavam se ela não preferiria cursar prendas domésticas. Não, absolutamente, ela não preferia. De volta ao Brasil, trabalhou como arquiteta por um ano ao lado do seu pai, mas faltava algo. “O meu pai era um arquiteto conhecido, mas era metódico e duro. Nossa parceria não durou muito tempo!”. Em 1963, um convite inesperado responderia às suas necessidades latentes de expansão.

Início da década 1950, Olga Krell acompanhando uma sessão de fotos externas com o fotógrafo José Antonio. Além de cuidar da produção da foto, discutia com o fotógrafo sobre o melhor ângulo daquela ambientação.

Amigos de longa data, desde os tempos de escola, Olga reencontrou o lendário editor Roberto Civita (filho do senhor Vitor Civita, fundador do grupo Editora Abril) em um momento crucial. “Por que não trabalha com a gente?”. Deram inicio à Cozinha Experimental de CLAUDIA, de forma inédita, seguindo padrões americanos conhecidos pelos dois amigos. “O Vitor queria fazer a cozinha experimental, que ele sabia que tinha nos Estados Unidos, me convidaram para ir pra lá. O meu pai falou: ‘Vai, você tem talento e vai subir’. Minha mãe tinha ‘ataques’, dizia que eu era ‘cozinheira’ da Abril!”. Unânime pelo bom gosto e refinamento natos, iconoclasta ao ponto de juntar a ‘prata inglesa’ e o ‘barro nordestino’ sob a mesma categoria de valoração, dentre os amigos da época Olga já despertava grande admiração, “Não era uma grã-fina. Ela trabalhava feito louca. E tinha um senso de humor fantástico”, conta o designer Attilio Baschera, na época diretor de arte da Editora Abril. Começava aí o que viria a se tornar uma lenda dentro e fora do Brasil.

A Casa de CLAUDIA – embrião que nasce em 1976 – inaugura o segmento de decoração e arquitetura no país, tornando-se o segundo faturamento comercial da editora, que só perderia para uma revista chamada Veja. Não era pouco. Porém, era muito raro o trabalho qualificado de grandes arquitetos e existia um preconceito para com as novas publicações que pretendiam ‘democratizar a categoria’. “Era difícil. Os arquitetos não queriam abrir seus projetos.” Olga, porém, sempre quis transmitir o próprio conhecimento e nunca foi egoísta. Sem ela, grandes nomes não seriam tão conhecidos (e reconhecidos hoje) pela extensão do seu trabalho. Dentre eles, podemos destacar João Armentano, Leo Shehtman, Oscar Mikail, Toninho Noronha, entre outros tantos, assim como empresas que se tornaram referência, como Montenapoleone, House Garden e Brentwood. “A grande pedra fundamental, a grande raiz está em Olga Krell. Ela é a grande mãe de todos nós!”, pragmatiza o reconhecido arquiteto Leo Shehtman.

Como editora na revista Claudia, Olga fez três viagens a bordo de um trailer, aproveitando as férias escolares dos filhos Lisa, Bobby e Charlie. O registro do dia a dia dessas aventuras transformou-se em matérias publicadas na revista.

Pioneira em todas as suas atividades, Olga Krell amadrinhou o maior evento de decoração da América Latina – a CASA COR, atendendo ao chamado da amiga Yolanda Figueiredo, em 1987. “Eu decidi que faríamos a Casa Cor, mas precisava do aval da Olga. Se ela dissesse não, não teríamos feito”, recorda a amiga. Olga estendeu a mão e o seu hall de influência, dividiu o seu conhecimento e capacidade técnica para ajudar no encaminhamento do evento para uma ampla abertura do mercado. “O que ela significa para a decoração? Olga Krell deveria estar no dicionário da língua portuguesa como ‘sinônimo’ de decoração!”, profetiza o amigo e empresário Hélio Bork.

Olga Krell fez história, criou uma lenda e inventou a escola que até hoje segue o seu vulto e repousa sob o seu nome, eternizado com o troféu OK da revista Decoração & Estilo Casa, que premia arquitetos, decoradores, paisagistas e designers nas categorias Casas, Apartamentos, Mostras, Paisagismos e Ambientes Comerciais. Em sua última edição, teve mais de 600 participantes de todo o país. É hoje a premiação mais importante de um setor que se fez milionário. A Grande Dama atravessou as décadas invicta e alcançou o limite do tabuleiro. Nada mal para uma menina que fugiu da guerra, superou o terror da morte e atravessou o Atlântico em busca de sobrevivência.

Parabéns, Olga Krell! Somos todos muitíssimo gratos. Xeque-Mate!

1996 – Olga Krell em mais uma das muitas vezes em que esteve na Feira de Milão, conhecendo as tendências internacionais e recolhendo material editorial para a Revista Casa Claudia. Olga foi pioneira na divulgação das novidades da Feira de Milão aqui no Brasil. Marcou presença na feira durante quase vinte anos seguidos, sempre a convite dos organizadores.