06/03/2017 — Texto: Rock Zanella | Fotos: Instituto Lotta

Uma das mais icônicas e emblemáticas personalidades da arquitetura urbanística brasileira do século XX: Maria Carlota Costallat de Macedo Soares.

Se você é uma dessas pessoas antenadas com a modernidade, vai reconhecer a Lotta (como ficou internacionalmente conhecida) através de alguns retratos (com algumas passagens polêmicas), dos instantâneos midiáticos do cinema – o filme “Flores Raras”, do romance biográfico “Flores raras e banalíssimas” ou dos fatos mais importantes de sua própria vida.

Lotta, que nasceu na Paris de 1910 e veio a falecer na Nova York de 1967, foi uma autodidata anglófila apaixonada pela arquitetura. Remetendo ao pecado do clichê (coisa que nunca se aplicaria a Lotta) – ela foi pura e simplesmente uma mulher muito à frente do seu tempo, visionária, romântica, sonhadora e, acima de tudo, uma realizadora.

Nascida (e criada) em berço esplêndido, Lotta veio de família da elite carioca, dirigia um Jaguar, fumava, usava calça jeans e camisas masculinas. Principal representante da cultura lesbiana de sua época, conviveu discreta e amorosamente com a sua companheira, a laureada poeta americana Elizabeth Bishop, com quem dividiu a sua vida por quase dez anos.

Foi “com” e “para” Bishop que Lotta deu inicio à construção (que duraria longos sete anos) da casa de Petrópolis, A Casa da Samambaia, marco da moderna arquitetura brasileira premiada pela Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo de 1951 – residência que se destaca por sua singularidade no panorama arquitetônico brasileiro. Em estrutura e telhas metálicas muito leves, era vedada por pedra bruta, vidro e tijolo. A cobertura original era em sapê, resultando numa mistura de materiais inusitada para a modernidade arquitetônica da época.

O projeto foi pioneiro no emprego da estrutura metálica para residências no Brasil, as treliças usam um sistema em zigue-zague que precisou ser montado na obra, de modo artesanal. Com 35m de frente, a construção tem desenho alongado e leve, dividido em alas ligadas por uma galeria. Tal intento foi realizado em parceria com o arquiteto e amigo Sergio Bernardes.

Personalidade brilhante, ela pôde compartilhar da convivência de alguns dos mais célebres nomes da arquitetura e das artes do século que passou – Carlos Lacerda, Oscar Niemeyer, Cândido Portinari, Walter Gropius, dentre tantos outros. Dona Lotta, como era conhecida em seu meio social, foi reconhecida arquiteta autodidata e paisagista emérita sem ter frequentado a universidade e, a convite do governo do então Estado da Guanabara no Rio de Janeiro, iniciou as obras do Parque do Flamengo em 1960.

Este, que seria o maior aterro urbano do mundo, é caracterizado por um terreno de 1.200.000m² de área verde à beira-mar, com arbustos floridos e profusão de árvores que compõem uma das vistas mais belas no maior parque da cidade – um processo tumultuado encabeçado por uma mulher sem diploma universitário que desencadeou inimizades desde o processo da construção do Aterro do Flamengo. Projeto faraônico que levaria Lotta ao esgotamento físico e emocional por mais de cinco anos ininterruptos de trabalho duro.

Para aterrar a área, o morro de Santo Agostinho teve de ser desmanchado a jatos d’água e para criar a praia do Botafogo retirou-se areia do fundo do mar, com a mesma draga que abriu o Canal do Panamá. Tudo eximiamente concebido e executado por Lotta.

Amiga pessoal de longa data do arquiteto Burle Marx, ela viu a amizade estremecer e conquistou nele o seu maior desafeto que viria encabeçar uma campanha difamatória acima do seu nome. O motivo era simples: os orçamentos superfaturados que o arquiteto intentara nas obras do Parque do Flamengo e que Lotta vetou!

Muitas vezes esquecida e pouco referenciada em seu próprio país, Lotta dedicou a sua vida à arquitetura e deixou um dos maiores legados para o nosso patrimônio imaterial. Algumas pessoas não conseguem se superar em uma vida inteira e nem ultrapassar o nível da própria mediocridade. Lotta de Macedo Soares, no entanto, com apenas algumas realizações, alcançou a respeitada posição que poucos ocupam no olimpo da arquitetura. Sua vida, grandiosa e trágica, teve fim na cidade que amava – na megalópole de concreto conhecida como Nova York, após uma forte crise emocional quando tentava reatar a sua vida com a parceira Elisabeth Bishop. Uma overdose de tranquilizantes levou para sempre aquela que seria a maior figura feminina da arquitetura urbanística de nosso país.