Texto Sandro Prezotto | Fotos Acervo da Artista

Publicado originalmente na edição 55 da Revista Habitare

Tudo começou como uma brincadeira de criança. Natural de Embu das Artes (SP), cidade com histórica vocação artística, Ana Gomes registra seu primeiro contato com a pintura por volta de 1986. “Aos nove anos, eu assistia muito à TV Cultura, que transmitia o programa À Mão Livre. Lembro que me apaixonei pela facilidade com que aquele desenhista rabiscava e fazia surgir rostos”. Para Ana, aquilo foi a base de tudo, apenas uma ponta do mundo fascinante das artes. “Então, na medida do possível, comecei a devorar tudo que encontrava sobre o assunto. Comecei a frequentar a feirinha de artesanato, a visitar o ateliê dos pintores da cidade. Cresci em meio ao cheiro da tinta”.

Na escola, ela sempre foi tímida com relação aos seus desenhos. Seu colégio era mais voltado para o lado musical, como o ballet e as danças contemporâneas, mas nessa época ela chegou a pintar alguns murais.

“O aprendizado é uma constante em minha vida. Sou observadora e tenho a sorte de sempre conhecer pessoas que me passam suas experiências. A paixão pela arte, eu pude ver nos olhos de artistas como Fernando Madalena, Marcos Campos, Cida Diniz e tantos outros que, ao longo da minha formação, contribuíram me transmitindo a importância de uma cor, o valor de um trabalho com emoção e uma certeza, que resume o que sinto em relação ao meu trabalho: A pintura me permite recriar o mundo, mesmo que esse mundo só exista dentro de mim”.

Ana havia participado de algumas exposições, mas em maio de 2015, ao ser selecionada para o SOAL (Salão de Outono da América Latina), seu trabalho ganhou visibilidade. “A divulgação pelas redes sociais me ajudou a conhecer curadores, compradores e artistas do mundo todo, pessoas que dão o devido valor a uma obra de arte, que reconhecem a criação e o artista”.

Outras exposições também levaram a arte premiada de Ana Gomes para lugares como o Memorial da América Latina, Casa Portugal, Centro Brasileiro Britânico, a Semana de Artes da USP, Clube Pinheiros (SP), Búzios (RJ) e a galeria Vianna Brasil Fine Jewelry, em Boca Raton, na Flórida (EUA). Para 2016, duas outras mostras já estão programadas, com curadoria de Angela de Oliveira: Portugal (fevereiro) e Áustria (abril).

Entre as principais técnicas e materiais que utiliza atualmente, a artista conta que adotou o acrílico desde o nascimento do filho, em 2007. “Até então eu utilizava a tinta a óleo. Gosto muito de desenho com grafite e lápis aquarela. Mas o acrílico me possibilita uma diversidade de texturas que pode ser aguado, como aquarela ou espessado como o óleo”.

Sobre os temas que inspiram suas criações, Ana comenta que atualmente está esmiuçando o universo infantil. “Acho o tema fascinante, justamente pela simplicidade e sinceridade da criança, que se utiliza de vários subterfúgios para passar uma mensagem e a fala muitas vezes não é o mais recorrente. As brincadeiras antigas, que usavam os corpos, olhos e o fôlego, no lugar do mouse e do computador, é o que procuro como complemento à imagem infantil”.

Ana conta que cada uma das telas criadas exige dela uma cor ou uma imagem como inspiração. “Faço o estudo para uma tela, com traços e tons, mas é algo interno, no meu subconsciente, que dita se tal cor vai predominar, se tudo será colorido ou se terá apenas um detalhe em destaque. Quando encontro esse caminho, vem uma sensação de satisfação interna tremenda. E esse trabalho agrada as pessoas que sentem o quanto o artista se doou de corpo e alma para fazê-lo”. O filho Tom, certamente, é outra grande fonte de inspiração. “Com a convivência, pude captar dele mais amiúde o que buscava nos parquinhos, o movimento infantil. As ideias surgem em momentos inesperados. O meu dia a dia e a vida me inspiram”.

Para Ana, a grande referência artística foi Frida Kahlo. “Seus trabalhos são sua vida com toda transparência e sinceridade. Sua história, seu processo de amadurecimento na arte, me arrepia e me inspira. Ao olhar uma tela dela, você sente medo, alegria, nojo, tristeza… Ela consegue despertar nas pessoas o que todo artista almeja. É impossível ficar indiferente diante de Frida Kahlo”.

Sobre o mercado da arte no Brasil, ela ainda considera promissor, apesar da crise. “O ser humano precisa da arte, que atua como um escape da realidade para muitos. A arte alimenta a alma, ela é mais do que necessária”. Além da galeria Viana Brasil, as obras de Ana Gomes também são vendidas em seu site pessoal e, na Europa, pelo portal PersonART.

2016 teve muitas novidades. “Em março, participei do projeto Fina Estampa, da Vera Simões, em que 20 artistas personalizaram lenços, para uma campanha contra o câncer. Algumas telas minhas também foram selecionadas pela curadora Vera Bekin para serem reproduzidas em uma linha de agendas e cadernos”.

www.artesanagomes.blogspot.com.br