07/04/2017 — Texto: Sandro Prezotto | Fotos: Acervo da Artista

Arquiteta, designer, artista plástica, mãe, esposa, empreendedora…

Parece que não há uma só função que Ana Maia Nobre não possa cumprir com excelência e dedicação. Natural de Maceió (Alagoas), Ana nasceu em um lar onde tudo conspirava para que ela se tornasse uma profissional da criatividade.

“Minha mãe é arquiteta, meu pai é engenheiro e minha irmã mais velha é arquiteta. A vida toda eu fui ligada ao meio artístico”.

Zélia Maia Nobre, a mãe de Ana, foi uma grande mecenas em Alagoas. “Primeira mulher arquiteta na cidade, ela foi a pioneira. Depois ela criou o curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Alagoas. Eu cresci em meio às pranchetas. Ficava olhando ela trabalhar e desenhando ao lado”. Ana conta que sua casa acabou virando uma pensão desses mestres e doutores do mundo todo.

“Nesse meio eu convivia com as pessoas que lá passaram, profissionais não somente da Arquitetura, mas ligados de uma forma geral à arte, como Burle Max, Janete Costa, Lina Bo Bardi, Borsói e tantos outros. Eu tive o privilégio de conhecer todos eles de perto. Arte e Arquitetura eram assuntos cotidianos na minha vida”.

Graduada em Arquitetura e Urbanismo, Ana também fez pós-graduações em História da Arte e Design. “Com essas três formações, eu compus a base para desenvolver minha visão como artista plástica. Fiz alguns cursos básicos de desenho e pintura em São Paulo, mas sempre tive uma facilidade muito grande”.

Da arte ao design

Em 1999, Ana entrou de cabeça no design e produção de luminárias para decoração, que ganharam uma extensa divulgação e repercussão internacional. Feitas de ferro e outros materiais, como papel reciclado e algodão, suas luminárias são verdadeiras obras de arte.

Chegar às grandes capitais do design, como Milão, foi uma evolução natural. A partir de 2000, seus produtos foram parar em grandes lojas e galerias de arte dos Estados Unidos. Os prêmios por originalidade se multiplicaram, com grandes reconhecimentos em São Francisco, Nova York e Paris, na Maison & Objet.

“A empresa cresceu tanto nessa época, que eu levei um susto. Com mais 80 funcionários e terceirizados, era tanta coisa para administrar, que não sobrava tempo para uma vida com qualidade e para me dedicar à minha arte”.

A partir daí, as possibilidades pareciam ser infinitas. “Nossas criações derivaram para roupas, mobiliário, acessórios e roupas de cama. Uma coleção de bolsas, em homenagem à Mary Poppins, que chamamos de Maia Pop, foi parar em uma exposição da Galeria La Samaritaine, em Paris”. Sob a marca Viver de Arte (que depois se tornou Maia Piatti), Ana e sua irmã, a também artista plástica Rosa Piatti, comercializavam toda essa imensa gama de itens.

Ana só foi compreender direito o alcance e status que seus produtos haviam alcançado no mercado, quando, em viagem a Barcelona (Espanha), encontrou em uma loja uma de suas luminárias sendo vendida a cinco mil euros.

“Resolvemos então repensar nossa forma de trabalho, pois a gente suava a camisa, movimentando a economia local, dando trabalho para muita gente, mas o vendedor final é quem ficava com a maior parte do lucro. De positivo dessa época, fica o belo trabalho de inclusão social que desenvolvemos, ajudando meninos de rua, que nós capacitamos e proporcionamos a eles uma perspectiva de futuro”.

Um mix de inspirações

“Em toda essa vivência, fui acumulando memórias afetivas, recordações das obras de grandes artistas que eu conheci. Você forma sua identidade artística com o lido e o percorrido, como dizia Affonso Arinos de Mello Franco. Ter uma mãe de vanguarda contribuiu demais. Viajar pelo interior do Nordeste com meu pai, Vinicius, trouxe as influências regionais, como um resgate das nossas raízes”.

Vem desse mix de inspirações a arte de Ana Maia, que mescla um estilo contemporâneo com toques da tradicional cultura nordestina.

Ana também traz muito de sua inspiração da natureza. “O sertão alagoano é uma das regiões mais lindas do país. Por mais que a seca seja cruel com as pessoas, mas daquele relevo e da vegetação você tira cores e texturas únicas que ficam no subconsciente. Dos mares, eu captei o verde berilo, uma tonalidade só encontrada nas ilhas do Caribe”.

“Meu material de trabalho é basicamente o que eu vou encontrando pelo caminho. Claro que eu não abro mão de excelentes tintas, mas as minhas criações envolvem materiais inusitados, como sarrafos de pesca e lonas de caminhão”.

“Geralmente, minhas telas e outros produtos são especificados por arquitetos, que sempre me deixam livres para criar”. Entre esses profissionais, está a arquiteta Andrea Carvalho, também alagoana e com escritório em Sorocaba (SP), que se diz fã do trabalho de Ana Maia há muito tempo.

“Alguns projetos surgem a partir de uma obra de arte, que podem inspirar as tonalidades e estilos dos demais itens de decoração”, acrescenta Andrea. “O que importa é que cada tela tenha uma história para contar, o que agrega ainda mais valor à obra”.

As Referências

Entre os artistas que são admirados e servem de referência para Ana, estão o pintor austríaco Hundertwasser, conhecido como o Gaudí da Áustria. “As cores dele me fascinam. Também sou apaixonada pelo Yves Klein, um contemporâneo francês. No Brasil, certamente Cândido Portinari e o alagoano Hércules Mendes”.

Além das atividades de seu ateliê em Maceió, entre os próximos projetos de Ana está a curadoria de uma das maiores artistas naïf do Brasil, Tânia de Maya Pedrosa. “Trazer meus trabalhos para Sorocaba e região também será muito importante para mim”.

www.anamaiadesigner.com.br