Texto: Rock Zanella

“Tenho tido a felicidade de poder desenhar espaços urbanos e vê-los concretizados na forma de cartões postais em várias cidades brasileiras”

Uma rosa é uma rosa
é uma rosa é uma rosa
Encanto extremo
Beleza extra
Encanto extremo
O mais doce sorvete
Páginas épocas página
épocas página épocas.
Texto de: Gertrude Stein

A  tautologia nos versos da poeta americana Gertrude Stein contém uma rica ambiguidade, apesar de sua formulação minimalista que traduz de forma magistral a mulher retratada nesta coluna – Rosa Grena Kliass. Elemento solitário e desbravador, única mulher junto da amiga Miranda Magnoli na turma da FAUUSP do ano de 1955, a interiorana de São Roque, SP (1932) tropeçou na arquitetura de forma um tanto misteriosa – “Nunca tinha conhecido um arquiteto, nunca tinha visto um desenho de arquitetura na minha vida”, e descobriu a “arquitetura da paisagem” em seu último ano de Faculdade com o professor Roberto Coelho Cardoso, que vinha de Berkeley (EUA) para assumir aquele desafio: “Eu e Miranda fomos alunas dele e imediatamente descobrimos que aquilo era a nossa missão!”

Responsável desde então pelo estabelecimento da profissão de Paisagista no Brasil, a senhora Kliass é a fundadora da ABAP (Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas) da qual foi diretora de 1975 a 1980, e teve ela mesma que trilhar sozinha a construção do seu mercado de trabalho. “Burle Marx era estrela única! Paisagismo no Brasil era somente o Roberto, que ficava no Rio de Janeiro”. A partir da década de 1960, Rosa inicia trabalhos pioneiros nas cidades de Curitiba (PR) e São Paulo (SP) a projetar os planos urbanísticos e paisagísticos das duas cidades, com o levantamento das áreas verdes para a definição dos grandes parques, das reservas naturais e a manutenção das beiras dos rios. Em seguida, veio a cidade de Joinville (SC) e também o surgimento do SERFHAU (Serviço Federal de Habitação e Urbanismo), órgão que passou a obrigar os municípios a apresentar um plano diretor para obtenção de verbas federais no Brasil.

Rosa inaugurou de forma pioneira o Departamento de Parque e Áreas Verdes da cidade de São Paulo – DEPAVE, na gestão do Governo Faria Lima (1965/1969): “Tudo era feito dentro dos gabinetes. Fui a um seminário do IAB para discutir as estratégias para fazer com que o governo chamasse os arquitetos para trabalhar nas obras públicas. Logo depois, fui surpreendida com um convite do prefeito para uma reunião no seu gabinete. E lá fui eu. Ao chegar, deparei-me com aquela grande mesa, cheia de engenheiros, todos do sexo masculino. Eu tinha não mais que 30 anos. Queriam seguir o modelo que estava sendo aplicado pela Lady Johnson, primeira-dama dos Estados Unidos, plantando flores nos canteiros das avenidas.” Assim vieram inúmeras obras assinadas pela senhora Kliass – o Parque do Morumbi foi o primeiro deles, seguido pelos desenhos de mais 44 praças das quais hoje restam apenas a Benedito Calixto e a Praça do Pôr do Sol.

“Paisagista Rebelde”, como ficou conhecida após publicação de um jornal chileno, visita os Estados Unidos da América em 1969 em uma ‘viagem de estudos’ e traz de lá tudo o que estava acontecendo em sua profissão pelo mundo afora, influenciada pelo teórico Ian McHarg, que tinha acabado de lançar o livro Design With Nature, material com grande metodologia para o Planejamento Paisagístico. “É o sistema de planejamento – não de desenho, ainda – das áreas livres, não construídas, de um lugar. Em escala regional, periurbana ou intraurbana, ele define, levando em conta as características da paisagem local, as áreas de preservação ambiental, as propícias ao uso agropecuário, as que devem ser instituídas como parques, praças, passeios públicos. Deve ser feito em equipes interdisciplinares compostas por arquitetos paisagistas, urbanistas, geógrafos, botânicos, hidrólogos, climatólogos, sociólogos etc”. No seu retorno para o Brasil, ela é convidada a coordenar Consórcio de Desenvolvimento Integrado dos Municípios do Vale do Paraíba (CODIVAP), com forte caracterização do conhecimento do Vale da Paraíba.

Rosa Kliass se confunde com a trajetória evolutiva do Paisagismo em nosso país, que deve as suas diretrizes à virtuose de seu temperamento e à genialidade incansável na ‘invenção de sua profissão’. São inúmeras as obras relevantes para todo o Brasil com a assinatura desta sagaz criadora como o Parque da Juventude, a reurbanização do Vale do Anhangabaú, o projeto paisagístico da Avenida Paulista (São Paulo, SP), o Parque do Abaeté (Salvador, BA), a Estação das Docas (Belém, PA), dentre inúmeras outras que podem ser consultadas facilmente através de citações do Wikipedia. “Tenho tido a felicidade de poder desenhar espaços urbanos e vê-los concretizados na forma de ‘cartões postais’ em várias cidades brasileiras”. Sobre uma de suas mais emblemáticas criações, o Parque do Forte (Macapá, AP), Kliass obteve uma das maiores emoções que a profissão pôde lhe proporcionar e testemunha emocionada tal recompensa em uma de suas entrevistas:

“Seis meses depois da abertura deste parque para o público, estando eu em São Luís do Maranhão, compartilhando a beira da piscina do hotel com uma família, deu-se o início de prosa com a indefectível pergunta:
– De onde você é? Perguntou-me o pai.
– Eu sou de São Paulo. E você?
– Eu sou de Macapá.
– De Macapá? E veja só, eu sou quase cidadã macapense.
– Como assim?
– Você conhece o Parque do Forte? Pois fui eu quem fez o projeto.
De imediato, o pai virou-se para a piscina e chamando o garoto:
– Venha aqui, meu filho, venha conhecer quem fez o lugar bonito!
E virando-se para mim:
– É assim que o lugar é conhecido. O ‘Lugar Bonito’!
Não sei se haverá alguma outra oportunidade para emoção igual.”

“É arquitetura da paisagem. Eu digo e repito ‘arquitetura da paisagem’ porque é o nome internacional. Não porque seja arquitetura, não, mas porque é o nome internacional”

Impossível sintetizar Rosa Kliass e os seus feitos dentre tantos “lugares bonitos” espalhados em solo pátrio, a síntese de uma saga que passa pela amizade sincera de Roberto Burle Marx e se mantém ativa ainda hoje no auge dos seus mais de oitenta anos, fazendo questão de se posicionar diante do seu ofício: “É arquitetura da paisagem. Eu digo e repito ‘arquitetura da paisagem’ porque é o nome internacional. Não porque seja arquitetura, não, mas porque é o nome internacional”.A ‘arquitetura da paisagem’ é o “desenho do vazio” e por isto sofreria o paisagista de um tipo de síndrome – a Síndrome de Deus, porque ele cria lugares, cria paisagens.

Gertrude Stein, tida como ‘Deus’ em sua síndrome de genialidade por todo o Olimpo intelectual de sua geração e também pelas posteriores, talvez nominasse “A ROSA” na personificação da entidade viva além dos versos – “ROSA KLIASS” deu vida à tautologia da autora americana através dos feitos de sua vida e obra, a nos ensinar que uma rosa não é apenas uma rosa e sim um conjunto de rosas e tantas outras plantas coloridas a enfeitar a paisagem em um mundo de infinitas formas e de grande beleza.