08/12/2016 — Texto: Karina Calado e Rui Costa

A importância da preservação do patrimônio histórico ganha, atualmente, novo foco, decorrente da necessária consciência de diminuirmos o impacto sobre o ambiente.

No entanto, a tendência natural do homem, na contemporaneidade, ainda é olhar com desprezo as construções antigas, vendo-as como bens ultrapassados e desatualizados, os quais devem ser demolidos para ceder lugar às edificações mais arrojadas e úteis ao desenvolvimento da cidade.

Esse tipo de pensamento impacta frontalmente com a ideia de preservação, de valorização do patrimônio como herança histórica a ser preservada. No entanto, não é possível preservar os espaços e as suas manifestações quotidianas sem, ao mesmo tempo, preservar a memória. Assim, os bens, que constituem os elementos formadores do patrimônio, são ícones repositores da memória, permitindo que o passado interaja com o presente, transmitindo conhecimento e formando a identidade de um povo.

Ao se contemplar um patrimônio histórico, evocamos lembranças de um passado que, mesmo remoto, é capaz de produzir sentimentos e sensações que parecem fazer reviver momentos e fatos ali vividos que fundamentam e explicam a realidade presente. Essa memória pode ser despertada através de lugares, edificações e de monumentos que, em sua materialidade, são capazes de rememorar a forma de vida daqueles que no passado deles se utilizaram. Cada edificação, portanto, carrega em si não apenas o material de que é composta, mas toda uma gama de significados e vivências ali experimentados.

Quando falamos em patrimônio histórico não estamos nos referindo a coisas, a uma ou algumas classes de objetos, e sim ao resultado de ações humanas, a um processo contínuo de selecionar, guardar, conservar e transmitir determinados valores sendo eles: econômicos, simbólicos ou afetivos. Assim, pode-se dizer que esse processo de valorização caracteriza-se pelo modo como os grupos sociais organizam sua memória, sendo ela individual e/ou coletiva.

Curiosamente, o autor Maurice Halbwachs afirma, em La Mémoire Collective, que cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva, e que este ponto de vista muda conforme o espaço ocupado. No entanto, a memória individual não está inteiramente isolada e fechada. Um homem, para evocar o seu próprio passado, tem frequentemente, necessidade de invocar as lembranças dos outros.

Na verdade, nada garante a permanência e a imutabilidade de um patrimônio histórico, se o compromisso de preservá-lo não for reiterado e renovado a cada geração. A preservação só faz sentido para a sociedade se relacionada a necessidades e interesses do momento presente, na busca constante de um ponto de equilíbrio entre permanência, mudança e memória.

Deve-se construir, portanto, uma arquitetura que fale do seu tempo, incorpore a sua época e, ao mesmo tempo, anseie por atemporalidade. Ou seja, uma arquitetura que seja, por um lado, temporal, na medida em que respeita o zeitgeist (espírito da época) e, por outro, atemporal na medida em que, procura por atemporalidade. Sendo a atemporalidade nada mais do que algo que transita no tempo sem necessidade de pertencer ao passado, presente ou futuro, é aquilo que permanece válido mesmo com o passar do tempo. Tudo o que permanece na memória e revive em gerações futuras como uma herança, um patrimônio histórico.