Texto: Rock Zanella | Foto: CAU/BR

“Oscar amava Juscelino
que amava Lelé que
amava Alda que amava
Lucio Costa que amava
Darcy Ribeiro que
não amava ninguém.
Oscar foi embora para
Brasília, Juscelino fez a
cidade de Brasília, Lelé
casou-se com Alda,
Lucio virou candango e
Darcy misturou-se aos
índios que não tinham
entrada na história”

Adaptação da obra ‘Ciranda’, de Carlos Drummond de Andrade, por Rock Zanella.

Se contássemos a trajetória de vida da arquiteta Alda Rabello Cunha poderíamos facilmente nos embrenhar na ‘Ciranda’ de Carlos Drummond de Andrade e resumir o legado da maior geração de arquitetura do país numa estrofe poética. A vida de Alda é um itinerário rico de personagens, causos, obras e contribuições sem fim para a Arquitetura no Brasil – contemporânea e parceira dos grandes homens de sua geração nos anos 50 e consecutivos, ela desbravou a sua profissão e estudou na Escola Nacional de Arquitetura, primeiro curso superior do país na área. Foi uma das quatro mulheres da turma, que tinha cerca de 40 estudantes. “A moda, na época, era que a mulher fosse professora. Eu nunca quis.”

A arquiteta chegou em Brasília antes mesmo da inauguração da capital federal, vinda da cidade do Rio de Janeiro, na qual havia se formado, e lá conheceu aquele que viria a ser o seu companheiro por mais de cinquenta anos – o arquiteto João Figueiras Lima, conhecido como ‘Lelé’. Conheceram-se no Ministério da Agricultura, trabalhando em parceria com Filinto Epitácio Maia, presidente na época do GTB (grupo do DASP responsável pela transferência dos funcionários para Brasília). Segundo palavras de Lelé: “Aprendi muito com Alda, avessa à notoriedade, mas com grande talento para arquitetura e para o desenho, além de um excelente senso de organização do trabalho. Não fosse o trabalho de pesquisa de Alda, com croquis primorosos de cada tipo de laboratório, acho que aquele projeto da Embrapa para o Centro de Pesquisa do Cerrado jamais poderia ter sido realizado com a qualidade necessária. Alda produziu também excelentes trabalhos de paisagismo para projetos meus e de Oscar”. Assim como na ‘pseudo’ Ciranda da Arquitetura que abre esta coluna, Alda aceitou o pedido de casamento de Lelé em 1960 e juntos tiveram três filhas para continuar a estória, Luciana, Adriana e Sônia. Todas nascidas na cidade de Brasília.

Cidadã do mundo e desbravadora de uma profissão extremamente machista, Alda nunca diferenciou a si mesma quando fala da categoria – “O papel da mulher na Arquitetura não tem nenhuma especialidade. Somos iguais aos homens. Casei, fui esposa, tive filhas. Mas nada disso me fez me achar outro tipo de profissional. Quando perguntam o que faço, digo que sou ‘arquiteto’. Não tem diferença”. Sobre o machismo de uma profissão tão masculina na época, é categórica: “Quando me perguntam sobre preconceito com as mulheres da Arquitetura na minha época, sempre respondo que nunca me dei conta. Atropelei, passei por cima. Preferi não tomar conhecimento.” Tanto é fato que ela desenvolveu, dentre tantas outras obras, a construção da cidade de Brasília – “Era a equipe que preparava os complementos da cidade, como é que se iria ocupar Brasília, que estava em construção. Fiquei encarregada de pensar e desenhar os padrões para o mobiliário, que precisava ficar pronto em 7 meses”, e desenhou o paisagismo dos CIEP (as escolas de tempo integral conhecidas como ‘Brizolões’), no Rio, que fez para Oscar Niemeyer, arquiteto que assinou os prédios. “Aquele padrão de grama e concreto agradou muito na época”.

A moda, na época, era que a mulher fosse professora. Eu nunca quis.

Enquanto paisagista, Alda lamenta a efemeridade desse tipo de Arquitetura. “As pessoas destratam o paisagismo. Como é uma coisa mais vulnerável, se sentem no direito de mexer, mudar tudo. Em pouco tempo, seu projeto não está mais ali”. Não podemos dizer o mesmo do conjunto de sua obra e do seu legado, que ajudou a construir a era de ouro da Arquitetura Brasileira. “O marco foi o Ministério da Educação e Cultura, no Rio de Janeiro (Edifício Gustavo Capanema). Foi ali que houve a quebra, sabe? Se rachou o cristal da Arquitetura do enfeite no Brasil. Aquele foi o grupo mais importante da Arquitetura brasileira – Affonso Eduardo Reidy, Carlos Leão, Jorge Moreira, Ernani Vasconcellos, Oscar Niemeyer e, principalmente, Lucio Costa. Essa turma toda aprendeu, entendeu Le Corbusier.” O arquiteto francês, precursor do modernismo, é a referência maior de Alda na profissão. “Agora mesmo estou relendo um livro dele. E cada vez entendo mais. Foi mal interpretado e injustiçado, mas teve uma visão brilhante, à frente do seu tempo”. E conceitua o seu ofício de forma simples e minimalista, pois para a mulher arquiteta que atravessou o século XX como uma ‘operária aplicada’ é preciso existir os Niemeyers, pessoas que alçam voos mais altos. Mas tem que haver também os Lelés, os disciplinados, que fazem obras possíveis, pois em sua visão a Arquitetura precisa solucionar a ocupação urbana e a habitação de forma funcional.

Hoje, com mais de oito décadas de um olhar apurado a respeito da construção do seu país, dona de uma bagagem infinitamente rica em vivências que habitam o nosso imaginário de simples mortais, Alda Rabello Cunha remete à sua infância um dos fatores primordiais que moldaram a sua vida e obra – nascida na cidade de Corumbá (MS), de onde saiu ainda na tenra infância, carrega na sua alma para sempre o pantanal sul-matogrossense, do qual nunca se esqueceu: “Quando criança, íamos para a avenida principal para ver os navios-gaiola no rio Paraguai. Lá, de longe, naquele horizonte livre. Isso faz a pessoa diferente!”.

A amplitude do Pantanal mensurou a amplitude da Arquiteta e a ciranda poética da alma de Alda mensurou a amplitude infinita de uma geração inteira!

*Com base em entrevista concedida a Emerson Fraga, analista de Comunicação do CAU/BR, e em crônica publicada na revista Arquitetura e Urbanismo.